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Colunistas - Mônica Brandão

PROFESOR, PROFISSÃO... À SUA ESCOLHA!

Publicado na edição 85 de Outubro de 2008

Há tempos venho refletindo sobre o que significa ser professor. Em especial ser professor brasileiro.
Todos os anos somos obrigados a participar de comemorações pelo dia 15 de outubro, de maneira em que os poderes constituídos nos levam a churrascarias, ou salões de festas, ou mesmo dentro das próprias escolas ou espaços acadêmicos, para nos renderem homenagens. Até aí tudo bem, não podemos efetivamente nos queixar, pois temos instalado em nós, a idéia de que ser grato é uma tarefa própria de quem se transita na Educação.
O que se assiste nesses eventos é algo medonho de tão desproporcional à nossa relevância para a sociedade. Acontece um furor gastronômico_ como se o professor fosse um “morto” de fome, uma falação desenfreada_ como se nós nunca pudéssemos expressar nossos verdadeiros sentimentos, e um torpor emburrecido, que chego a pensar que só pode ser proposital. Isto para que percamos o foco central de nossa importância: transformar a sociedade.
Em momento algum somos reverenciados pelo conhecimento que carregamos. Pelo enobrecimento da espécie humana que insistimos em preservar e muito menos pelo futuro que profetizamos.
Tenho tido a esperança de ver ex-alunos no poder e quem sabe reproduzir o velho e nobre discurso da revolução francesa, por exemplo: liberdade, igualdade e fraternidade. Mas que nada. Nem mesmo os alunos mais afinados com a lógica do pensamento produtivo_ aqui, não no sentido econômico, naturalmente, demonstram uma pequena e singela homenagem ao seu professor. O que assisto muito contrariada é ao episódio saudosista, que em nada contribui para com o objetivo maior da Educação. Neste caso, transformar. Somos nós os responsáveis pela transformação da sociedade, pelo conhecimento. Pelo menos foi assim que aprendi com os meus Professores.
Somos nós os responsáveis pelo saber. Isto nos pertence. Não pertence a nenhum outro profissional. É nosso dever, articular o conhecimento. Nossa obrigação conduzir os alunos à libertação pelo conhecimento, não apenas na superficialidade dos temas. Isto qualquer um pode fazer. Muito menos nos pertence, a tarefa de resolver impasses que a sociedade não consegue dar conta. Empurram para o universo escolar impasses do tipo violência, marginalidade, vida familiar desarticulada, pobreza econômica, aspectos negativos da cultura, entre outros. O próprio meio acadêmico, constituiu profissionais especializados para trabalharem com esses tipos de problemáticas. Não nós. Nós somos Professores. Não somos tios ou tias de nossos alunos, a não ser que sejam naturalmente nossos parentes, consangüíneos. Por que deveríamos gostar de termos tantos sobrinhos e sobrinhas ao invés de alunos e alunas? Que espécie de tratamento os alunos precisam ter, para serem convencidos a estudar? Que história é essa de nos fazer exigências do tipo: sejam dóceis, frágeis, amorosos o tempo todo, compreensivos extremamente, solidários essencialmente e tudo o mais, e recebermos de volta: um não. “Não quero estudar”, “não gosto de escola”, “não quero este professor”, e tantas outras falas, que fico confusa só de pensar. É definitivamente um absurdo! Inaceitável!
Uma homenagem que sinceramente gostaria de ter, é não ter de passar um ano letivo inteiro, para escutar como resposta ao conhecimento articulado, o seguinte: _aproxima a nota “dele”, ele só ficou na sua matéria e como a sua matéria pode ser artes, filosofia, inglês, educação física ou sociologia... tudo bem_ nesta expressão está embutida a palavra, descartável, sem importância. Ufa! É mesmo de doer a qualquer professor, que sua disciplina, constituída legalmente, se transforme em algo descartável ou de menor importância, porque o aluno simplesmente não se afina com ela, ou porque o aluno por capricho ou motivo torpe, não gosta. Realmente gostaria de assistir ao contrário. Gostaria que a sociedade inteira gritasse: eu quero mais conhecimento, que as matérias sejam mais e mais complexas, que sejamos desafiados a ampliar o conhecimento e não a reduzi-lo a uma notinha aproximada no final do ano letivo.
Para este 15 de outubro, não vai dar tempo para ser como nós merecemos. Mas quem sabe nos próximos, além da compatível remuneração _ que cá pra nós, não dá nem para começar a conversa, que dirá para significar nossa importância, nós tenhamos a homenagem sincera e natural. Qual seja: Professor insista em sua temática e não abandone sua causa. Nós sociedade só existimos porque você existe.
O futuro liberto da ignorância agradece.

Mônica Brandão
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