JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

QUEIME DEPOIS DE LER

Publicado na edição 98 de Dezembro de 2009

“Desordem é a ordem que não queremos."
Goffredo Telles Junior (1915-2009)

“Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso sou doido com todo direito a sê-lo.“
Álvaro de Campos

Nós somos assim: lemos coisas interessantes, pensamentos instigantes, reportagens impactantes. Temos sempre a sensação de que recortando, arrancando, anotando, colecio-nando e guardando, um dia, talvez, quem sabe, possamos reaproveitar aquela matéria, apontamento, texto, pensamento. Assim, com o passar dos anos, acabamos acumulando, juntando, amontoando coisas e mais coisas e já não há mais caixas que suportem, cômodos que acomodem e companhia que não se importe. Sabemos que lemos, que temos, que aquilo está em algum lugar, mas quando precisamos, mesmo revirando tudo, nunca encontramos. Falta espaço em nossos guardados. Ora, para que guardar tudo se na verdade nada temos? Sim, porque, se não encontramos; se aquilo não nos socorre, quando precisamos, talvez tenhamos que admitir: aquilo não tem utilidade; não existe mesmo. Perdemos tempo procurando, quando finalizamos a busca e não encontramos, o tempo já se acabou e aí resta-nos muito pouco. Procurando é que nos damos conta que guardamos tanta coisa que, nem o apogeu do resto de nossos dias, nos assegurará tempo para ver, rever, reler. Tudo é efêmero e uma prova dessa nossa finitude ai se revela. Os papéis amarelecidos, guardados por tanto tempo, nos deixam a lição de que o tempo nos consome e nos embaraça. Um livro não se queima. Não se mutila. Uma obra de arte tampouco. É um crime sem perdão, sobretudo num país de pouca leitura. Mas esses nossos guardados – ´muletas` que faltam a nós cegos, quando precisamos andar – essas coisas que guardamos e perdemos pelo caminho, tudo isso deve ser cuidadosa e delicadamente separado com luvas nas mãos, caixa por caixa, organizadamente por assun-tos e temas. Depois de contemplada essa coleção de recortes arrumada e feita a despedida póstuma, deve ser solenemente queimada sob nossas vistas, para que tenhamos a certeza e a sensação verdadeira de que somos apenas o que lemos, o que ouvimos, o que vivemos, o que registramos e trazemos guardado na retina. Nada mais. Esse artigo mesmo, queira o prezado e distinto leitor, arremessá-lo diretamente ao lixo e queimá-lo depois de ler.


Antônio Laért
Conheça o perfil pessoal de nosso colunista ou outros artigos publicados por ele
Clique Aqui