JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Neuza Carion

Desabafo

Publicado na edição 100 de Fevereiro de 2010

Há algumas semanas li em um jornal uma frase dita pelo presidente Lula aconselhando as mulheres a não se submeter aos homens “por um prato de comida”, devendo fazê-lo apenas “por amor”. Por isto decidi escrever-lhe uma carta-desabafo.

Senhor Presidente,

Desculpe-me, mas, em que pese a boa intenção, sua frase foi infeliz.

Vou eu também desculpá-lo, pois levo em consideração os conceitos vigentes no tempo de sua formação: entendo que o que aprendemos em nossa infância permanece e condiciona o que somos, pensamos e sentimos, mesmo quando racionalmente superamos nossas limitações, crescemos, evoluímos. Somos contemporâneos, posso entendê-lo, apesar de nossas circunstâncias terem sido muito diferentes.

Nossa principal diferença, porém, é de gênero: do lado de cá, do meu ângulo de visão, não serve de consolo não ter que se submeter por um prato de comida, ou uma coisa à toa, ou um teto, ou um corte de cetim... Falo não só por mim, mas em nome de todas: mulheres são cidadãs livres, responsáveis, capazes, produtivas, não precisam se submeter a ninguém, por coisa alguma! Nem por amor, que submissão cheira a escravidão, seja qual for o motivo. Relação que exige submissão é de domínio, de posse, não de amor!

Podemos – devemos! - nos submeter sim, alegremente e convictas, às normas que regem a vida, as naturais e as da sociedade. Queremos viver bem, exercer nossos direitos, cumprir nossos deveres, respeitar a nós mesmas e aos outros e ser respeitadas.
Não pedimos, nem precisamos oferecer submissão, que no dicionário tem entre suas definições “adesão involuntária” e um sentido de humilhação.

Queremos companheiros que sejam nossos iguais, parceiros, numa relação de troca justa! É triste ver que o padrão, para a maioria – de ambos os lados - ainda é o da obtenção de conforto e segurança em troca de trabalho não valorizado e/ou favores, inclusive sexuais. Dignidade zero.

Isto me remete à etimologia do verbo submeter: sub = sob, abaixo, e meter = colocar. Ou seja, por-se debaixo. E, para quebrar a tensão, a única circunstância em que isto – assim ao pé da letra - me parece aceitável é... impublicável! Precisamos de cuidados, carinho, afeto ... e sexo, mas principalmente de nexo.

Podemos nos doar, nos sacrificar como sempre fizemos, mas de vontade livre e própria.

Enfim, Senhor Presidente, espero não estar incorrendo no pecado do orgulho. Acho que não. E acho muito curioso que a colocação tenha vindo de alguém como o senhor que é o que é e chegou aonde chegou por ter uma mãe que, segundo entendi, não se submeteu.

Respeitosamente, Neuza Carion.

Neuza Carion
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