JORNAL MILÊNIO VIP - SÃO JOSÉ: FAMA E ANONIMATO

Colunistas - Antônio Laért

SÃO JOSÉ: FAMA E ANONIMATO

Publicado na edição 101 de Abril de 2010

“Há certas substâncias no mundo que transformam o homem, como é o caso de um poema”.
“Um homem vindo da derrota pesa mais e vem menor”.
Gonçalo M. Tavares

Há poucos dias, em dezenove de março comemoramos São José, o esposo da Virgem Maria. Esse homem é uma figura que fascina. Recordo de minha avó e sua devoção a José, filho de David. Na casa de meus pais possuímos na varanda uma linda cena em azulejos portugueses da vida de São José. Tudo isso vem à memória nesta data tão especial. Mas, o que me fascina mesmo no Pai adotivo de Jesus é sua serenidade no anonimato, no silêncio, nesse conviver com o desprezo, o esquecimento, a indiferença; esse passar despercebido. A Sagrada Escritura dedica apenas referências esparsas e muito breves a José, o homem justo. Já se disse que quando a bondade divina escolhe alguém para uma graça singular, dá-lhe todos os carismas necessários. Isso aconteceu com José, guardião fiel de Jesus e Maria. Abriu espaços livres dentro de si e deixou-se invadir por uma Presença que produziu intensa beleza.

Nesse tempo em que se vive da fama de alguns segundos apenas e de big brothers, tempo de dissipação ruidosa e de cultivo da superficialidade, o anonimato é tema, no mínimo, polêmico. Lobão e Bernardo Vilhena retrataram bem isso, quando cantaram: “Se ninguém olha quando você passa você logo acha que a vida voltou ao normal/ Aquela vida sem sentido, volta sem perigo/ É a mesma vida sempre igual/ Se ninguém olha quando você passa você logo diz Palhaço/ Você acha que não tá legal/ Corre todos os perigos, perde os sentidos/ Você passa mal”.

Esse passar ao largo, sem ser notado incomoda e ao mesmo tempo desafia e interpela. Vivemos entre dois extremos: o anonimato de uma presença não notada e a exposição excessiva de uma presença que incomoda. Anonimato e Fama.

A história registra casos de pessoas que atingiram a fama e dela se retiraram para viver no anonimato. J. D. Salinger, autor do best seller O apanhador no campo de centeio foi um desses: nenhuma obra nova, nenhuma entrevista, nenhuma foto, nada. Depois da acolhida estrondosa de sua obra, recolheu-se à seu rancho em Cornish, New Hampshire, EUA, e dele só saiu morto.

O anonimato é algo que, para alguns se torna de visceral valor. Há quem o cultive de forma obsessiva. O anonimato para esses tem uma importância maior que qualquer outra coisa. Sua vida não pode nem deve ser devassada minimamente: uma entrevista, uma foto, seja o que for desse tipo, põe tudo a perder. Tudo o que eles amam é seu intransigente anonimato. Ergue-se um muro invisível sobre suas vidas. Vivem alheios ao ruído do aplauso, de prêmios, de academias, do bulício da fama, essa senhora detestável, como lhe chama, Milan Kundera. Ser anônimo, apesar do nome e da fama, aumenta um pouco a beleza e o brilho de alguns. O tempo relativiza e transforma tudo em pura palha.

Antônio Laért
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