JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

A PERDA DO TEMPO DOS AFETOS

Publicado na edição 102 de Maio de 2010

“Não se curam misérias ressuscitando tradições”.
Eça de Queiroz (1845-1900)

“Não se esquenta uma casa com a promessa de lenha”.
Provérbio Russo

Os símbolos dão significados à vida, marcam a história, contextualizam tempo e assinalam épocas. São coisas que representam algo para alguém. Em Magé restou-nos muitos poucos símbolos. Infelizmente vivemos sem marcas importantes, sem símbolos em que nos reconhecemos e identificamos como mageenses. Pouca coisa ou quase nada sobrou desse rico passado de Magé. Talvez a Matriz de Nossa Senhora da Piedade, seja um desses poucos símbolos que ainda nos identifica. Com efeito, esse templo que ainda resta de pé, altivo, ao fim da avenida padre Anchieta, compondo um bonito quadro que tem por paisagem de fundo a Serra dos Órgãos e a franja verde da encosta que recobre aquela elevação, é uma das poucas marcas que remanesce aqui no recôncavo da baia de Guanabara, decorridos 260 anos, desde 1750, data de sua fundação. Pelo andar das carruagens que hoje transitam pela rua da matriz e seu entorno, talvez não a tenhamos por muito mais tempo, ante o evidente comprometimento de suas frágeis estruturas. Incrível que apenas bem poucos mageenses mostrem-se preocupados com esse quadro de absoluto descaso para com nossas origens. Desde padre Montezano e Dario Navarro, que por primeiro levantaram essa bandeira, o silêncio e a omissão da grande massa tem sido ensurdecedor e desolador. Já se passou mais de 20 anos sob essa passividade com o agravamento do quadro de lento, gradual e silencioso comprometimento de suas fundações. O sentimento de pertença da Matriz à Magé, transcende a comunidade católica, que a edificou e dela é a guardiã. Os poderes constituídos – Executivo, Legislativo e Judiciário - continuam amorfos, inodoros, insípidos. Assistem a tudo com uma passividade incômoda. Quem sabe esperam um fato concreto: a ruína da ermida, para então agir ? Nosso passado e nossas origens serão riscadas do mapa da cidade, assim como muitos outros símbolos foram perdidos e se tornaram apenas pálida lembrança. Em qualquer lugar do mundo e em muitos de nosso Brasil, protege-se o patrimônio histórico, com regras de limitação de tráfego, restrição de circulação, desvio de rotas, proibição de acesso. Aqui, ao contrário, beneficiam-se os veículos pesados, os transportes coletivos, os automóveis particulares, sacrificando-se e colocando sob risco o pouco que resta de nosso rico e glorioso passado assentado no largo da Matriz, também palco da refrega final entre monarquistas e republicanos, no episódio conhecido como “Os horrores de Magé”. Será que, sob uma pequena fresta, não haverá uma pálida luz capaz de penetrar nossa Casa de Leis, de sombras e cinzas, para iluminar algum vereador a adotar iniciativas para tratar do assunto? Será que não restará algumas gotas de lucidez ao Executivo, que agora governa pelo seu reverso, para, por decreto, numa penada resolver a questão? Haverá saída para a sustentabilidade desse nosso símbolo? Quero crer que sim. Do contrário, as pedras falarão!


Antônio Laért
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