JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

MOSAICO DE SOLIDÃO

Publicado na edição 103 de Junho de 2010

“E basta contar compasso, basta contar consigo que a chama não tem pavio”. Milton Nascimento, Lô e Márcio Borges

“Um tom azul quase inexistente, azul que não há, azul que é pura memória de algum lugar”. Caetano Veloso

A solidão permeia tudo: vida, música, literatura, espaço, tempo, o homem. Participa do curso dos eventos, melhorando a sorte das pessoas. Gosto de ficar só. Ouvir o nada. Ir na direção oeste desta terra prometida. Estar posto em sossego. Adentrar esse caos calmo. Abrir portas e janelas para essa paz dos mosteiros. É assim que descobrimos e travamos contato com o Eu profundo. A solidão, é um libelo em prol do encontrar-se, conhecer-se. “A solidão é fera, a solidão devora, é amiga das horas, prima-irmã do tempo e faz nossos relógios caminharem lento, causando um descompasso no meu coração”. É o medo desse estado de coisas que muitas vezes nos leva a proclamar: “não me deixe só, eu tenho medo do escuro, tenho medo do inseguro, dos fantasmas da minha voz”. Mas será mesmo que “a solidão é a pretensão de quem fica escondido fazendo fita”? Como meu destino é raro e tenho desejos maiores, este parece não ser o meu caso.

Devo admitir, porém, que quando “chove lá fora e aqui tá tanto frio, me dá vontade de saber aonde está você”. Algumas vezes, “minha solidão se sente acompanhada, por isso eu necessito teu colo”. Logo eu, “que tenho medo até de suas mãos e de seu olhar, e você não percebe”, admito: “está tudo cinza sem você, está tão vazio. “Nos seus olhos quero descobrir uma razão para viver”. Ah, “é tudo real nas minhas mentiras” que “eu tenho andado tão sozinho ultimamente, que nem vejo a minha frente nada que me dá prazer”. “Vazio, com nada, sem tudo, abandonado”. Mas “me acumulas de amores” e eu até “me retraio olhando em cada rosto, cada um tem seu mistério, seu sofrer, sua ilusão”. É um lugar “maior que a imensidão da paz, bem maior que o sol”. “Me rói como um mistério. O resumo é de cada um. Quando desespero vejo muito mais.” Sem me despedaçar. “Se alguma vez me sinto derrotado, eu abro mão do sol de cada dia, rezando o credo que tu me ensinaste, olho o teu rosto e digo à ventania”. O que “me vem assim de forma tão caudalosa”, “descansa meus olhos, sossega minha boca, me enche de luz”.

Antônio Laért
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