JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Neuza Carion

NÃO É NOSSA

Publicado na edição 104 de Julho de 2010

Acabou, perdemos. Toda a emoção da torcida, o arroubo patriótico, o sentimento de defesa da pátria e de seus valores, tudo em vão. Perdemos.

Mesmo sabendo, racionalmente, que é uma causa fictícia, talvez uma analogia com conflitos entre nações – estes sim, com perigos concretos e consequências dolorosas – nos empolgamos, nos envolvemos no mundo ruidoso e colorido de bandeiras e símbolos, deixamos que interfira em nossas vidas e paralisem o país. Mesmo os boatos de negociatas e previsões mirabolantes não nos abalam a fé e a esperança.

A vitória (para a qual não contribuímos e que depende da perícia, saúde e estado emocional de onze pares de pernas e braços que mal conhecemos) nos traz orgulho, a sensação de conquista, superioridade, poder. A derrota, sentimentos de perda, vazio no peito, impotência. Mistérios (para leigos como eu) da mente humana, talvez uma forma de manter ativo algum instinto necessário à sobrevivência da espécie.

Mas acabou, perdemos. A pátria despe as chuteiras e, devidamente discutida e curtida a frustração, volta ao cinzento mundo real, compromissos, trabalho.

Dizem que a partir de agora o ano começa de verdade. Puro engano. Neste ano específico, o fim de nossa participação no sonho da Copa coincide com o começo oficial da campanha eleitoral. E aí começa outra história, com outros sonhos, que também têm o poder de paralisar parte do país - justamente a parte que o administra.

A diferença é que este caso é do mundo real e todos têm participação direta, o poder de decisão, e as conseqüências desta decisão se refletem nas vidas de milhões. A derrota, neste caso, não é de um sonho, nem de um candidato. O que está em jogo é comida, saúde, bem-estar, dignidade, equilíbrio. Agora é hora de ver, ouvir, avaliar e se envolver sim, com a mesma paixão, nas discussões e na formação de opiniões – que agora as opiniões valem. Agora é a hora de sonhar com o que queremos para nossas vidas, nosso país, nosso futuro. E agir, propor, cobrar.

Futebol é diversão, é encantamento. É justo e necessário que nos permitamos a euforia inconseqüente e o prazer. A taça não é nossa. Mas a vida é. Não podemos (com perdão pelo trocadilho) trocar as bolas e nos omitir no que é realmente sério. Política é coisa séria. Muito mais necessário é que nos conscientizemos de nossa responsabilidade e dever de participação no que define a nossa qualidade de vida.

De resto, é esperar 2014, que poderá nos trazer muita felicidade, ou muita ilusão, dependendo do que efetivamente decidirmos em 2010.

Neuza Carion
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