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Colunistas - Rosinha Matuck

Dia dos pais - Um viés das muitas lembranças

Publicado na edição 105 de Agosto de 2010

\"\"Pais heróis e mães rainhas do lar. Passamos boa parte da nossa existência cultivando estes estereótipos.

Até que um dia o pai herói começa a passar o tempo todo sentado, resmunga baixinho e puxa uns assuntos sem pé nem cabeça. A rainha do lar começa a ter dificuldade de concluir as frases e dá pra implicar com a empregada. O que papai e mamãe fizeram para caducar de uma hora para outra? Fizeram 60, 70, 80 anos. Nossos pais envelhecem. Ninguém havia nos preparado para isso. Um belo dia eles perdem o garbo, ficam mais vulneráveis e adquirem umas manias bobas.

Estão cansados de cuidar dos outros e de servir de exemplo: agora chegou a vez de eles serem cuidados e mimados por nós, nem que para isso recorram a uma chantagenzinha emocional. Têm muita quilometragem rodada e sabem tudo, e o que não sabem eles inventam. Não fazem mais planos a longo prazo, agora dedicam-se a pequenas aventuras, como comer escondido tudo o que o médico proibiu. Estão com manchas na pele. Ficam tristes de repente. Mas não estão caducos: caducos ficamos nós os filhos, que relutam em aceitar o ciclo da vida.

É complicado aceitar que nossos heróis e rainhas já não estão no controle da situação. Estão frágeis e um pouco esquecidos, têm este direito, mas seguimos exigindo deles a energia de uma usina.

Não admitimos suas fraquezas, seu desânimo.

Ficamos irritados se eles se atrapalham com o celular e ainda temos a cara-de-pau de corrigi-los quando usam expressões em desuso: calça de brim? radio-eletrola?

Em vez de aceitarmos com serenidade o fato de que “eles” adotam um ritmo mais lento com o passar dos anos, simplesmente ficamos irritados por “eles” terem traído nossa confiança, a confiança de que seriam indestrutíveis como os super-heróis.

Provocamos discussões inúteis e os enervamos com nossa insistência para que tudo siga como sempre foi.

Essa nossa intolerância é puro medo!

Medo de perdê-los, e medo de perdermos a nós mesmos, medo de também deixarmos de ser lúcidos e joviais. É uma enrascada essa tal de passagem do tempo.

Nos ensinam a tirar proveito de cada etapa da vida, mas é difícil aceitar as etapas dos outros, ainda mais quando os outros são papai e mamãe, nossos alicerces, aqueles para quem sempre podíamos voltar, e que agora estão dando sinais e que um dia irão partir sem nós. E partem, para sempre. A nós cabe, aproveitar o máximo desse carinho, dessa presença dessa lembrança e dessa história familiar que, para sempre ficará guardada em nossos corações com muitas saudades...

FELIZ DIA DOS PAIS!!

Um abraço bem grande e um beijo na face (mesmo que a barba esteja por fazer) do “Velho Jorge Matuck“ (o meu pai que partiu no dia 12 de outubro.)

Que depois de 39 anos, será mais um “Dia dos Pais“ que não vou dar um abraço nele.

Mas sei que ele esta bem.

Rosinha Matuck
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