JORNAL MILÊNIO VIP - A dor e a delícia de ser o que é

Colunistas - Antônio Laért

A dor e a delícia de ser o que é

Publicado na edição 105 de Agosto de 2010

“A verdadeira viagem de descoberta não consiste em procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos”. Marcel Proust (1871-1922)

“Só uma palavra me devora: aquela que meu coração não diz”. Suely Costa

Em vinte e quatro anos como advogado já escrevi milhares de peças processuais. Sou, portanto, autor de um acervo incontável e inumerável de textos que, em regra, se perderão encartados nos autos de alguns desses muitos processos em que atuei. Sentado à beira do canal de Paraty, no deck da Tenda dos Autores, essa reflexão me vem à mente, passa por mim, me atordoa. De tudo o que escrevi, a maior parte se perderá na poeira dos papéis que se decompõem nos escaninhos do Judiciário, onde o processo findo é definitivamente sepultado. Pode ser que uma ou outra peça, apenas pela novidade que eventualmente contenha, solte da folha fria do processo para algum compêndio, a fim de que venha ser analisada, criticada, estudada, apreciada.

Grande parte de tudo o que produzi, porém, está fadada à ação do tempo, à intempérie. Gastei tantas horas, tinta, tempo, cumpri rigorosamente os prazos e tudo será lançado ao fogo, incinerado segundo a tabela de temporalidade do Tribunal. Talvez devesse dedicar-me mais a escrever trabalhos com maiores chances de perenidade. Por isso talvez, é que esteja tentando saltar dos processos para construir textos que se propõem a ter maior sobrevida. O suporte físico em que escrevo - da folha dos autos para a página do livro - não garante necessariamente maior perenidade. É que os textos podem permanecer mesmo inéditos e perderem-se a sós com o autor. Pode ser ainda que o livro sequer venha a ser publicado.

E mais, que o volume esteja mesmo fadado ao insucesso. Certo é, entretanto, que nem mamãe terá cópias de minhas peças processuais. Com efeito, por mais que me ame e queira bem, razão alguma poderia justificar que guardasse coisas tão áridas e enfadonhas. Um opúsculo contendo textos reunidos, ao contrário, pode despertar em alguém o interesse em guardar e pode ser até que essa pessoa o faça com carinho por gostar; que sublinhe o texto; que faça anotações à margem; que volte à ele; que traga-o à mão, ou debaixo do braço; que conserve a brochura em sua biblioteca. Quem sabe leia-o, sentado na praça pública, deitado sob a relva e ao sol. É isso. Às vezes é mesmo bom fugir dos desafios do dia-a-dia da advocacia para estar nesse outro lugar, em que posso usar a palavra com o empenho de sentir e provocar um prazer estético, reverenciando-a, emprestando significados e poetizando a vida. Reciclar o olhar, me alimentar de outros talentos e habilidades, renovar minhas fontes, me inspirar e reinventar-me. Ah, quando retorno dessa viagem, estou bem melhor.

Antônio Laért
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