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Colunistas - Dulcimar Menezes

Onde está a cobra morta?

Publicado na edição 106 de Setembro de 2010

"Então é assim que a liberdade morre - com um extrondoso aplauso ": ?Padmé Amidala

Vida de profissional liberal não é nada simples. Há os que dizem que é tudo mais fácil quando não se tem patrão. Nós autônomos sabemos que a história não é bem esta. Somos certamente beneficiados de muitas vantagens, mas também de inúmeras desvantagem. Como toda sociedade, sofremos as conseqüências das decisões políticas que determinam a economia e as condições de vida da população. Exerço a profissão de psicólogo de forma autônoma há 22 anos e já sofri muito com os altos e baixos da realidade social brasileira.

E se eu fosse escolher qual foi o tempo em que senti a maior dificuldade de manter o equilíbrio do meu sustento, digo com toda certeza que a pior fase foi o período da superinflação. Mas precisamente o início da década de 90, ainda século XX. Nossa! Que período difícil. A inflação era absurda. Precisávamos fazer um reajuste mensal no valor da consulta de acordo com o Índice Geral de Preços de mercado – IGP-M. Os convênios não faziam o mesmo. Foi um tempo terrível! Sem falar na grande dificuldade da população em adquirir produtos de primeira necessidade, imaginem como era para pagar o tratamento psicológico! O sacrifício das pessoas era imenso! Perdi muitos convênios, pois não era possível sustentar acordos que não previam a correção monetária do faturamento. A inflação em 1994 atingiu a marca de 46,58% ao mês! Bem, então vamos lembrar o que aconteceu. No governo do Presidente Itamar Franco, o então Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso colocou em prática o Plano Real, um programa brasileiro de estabilização econômica. Instituiu a Unidade Real de Valor (URV), estabeleceu regras de conversão e uso de valores monetários, iniciou a desindexação da economia, e determinou o lançamento de uma nova moeda, o Real. Foi aí que a nossa vida começou a mudar. Foi aí que começamos verdadeiramente a exorcizar o fantasma da inflação. Ninguém me contou nada disso. Eu vi. Eu senti na pele. Foi a primeira vez que um programa de governo dava certo na minha vida. Tudo foi ficando melhor em termos financeiros. O Brasil começou a se estruturar economicamente. Porém, nós esperávamos outras mudanças também que não aconteciam. Mudanças sociais na educação, saúde e trabalho. Apostamos em mudanças!

E, lamento constatar que elas não aconteceram até hoje!
A população continua sem educação decente e, assim sendo, continua refém dos comerciantes do ensino. As escolas públicas e privadas tiveram os seus prédios reformados e instrumentados de tecnologia. Mas os professores continuam mal valorizados e tendo que se desdobrar em três para realizarem uma pequena parcela de seus objetivos pessoais. Como exigir deste grupo um melhor trabalho? O trabalho deles já é quase missionário!

E mais, não há um hospital público que acolha dignamente o cidadão. Quem não tem um plano de saúde privado está lascado! No sistema judiciário a morosidade impera. Abrir um negócio simples é assumir uma forca fiscal. As Universidades são sucateadas. A produção científica é pechinchada. A migração de nossos cientistas para outros países é desconcertante. A desigualdade social só desapareceu nas estatísticas. Apontem-me o que está realmente acontecendo de bom para a população, mas, por favor, poupem-me de mencionar aquelas mendigarias de vales-disto e bolsas-daquilo. Estou me referindo a uma Cidadania que possamos chamar de digna.

Não sou especialista em política ou economia, mas sei reconhecer na minha vida os efeitos de decisões governamentais. Atualmente a população tem um poder de compra um pouquinho melhor; não devemos mais ao FMI; pelo contrário, emprestamos ao FMI. Vamos sediar a Copa de 2014 e, somente por conta disso, agora melhoraremos o sistema de transporte coletivo, identificado como a nossa maior deficiência (me pergunto por que antes isto não era uma prioridade que agora passou a ser...) e vai chover melhorias em outros diversos setores. Enfim, é bem verdade que a inflação foi controlada e não há a menor dúvida sobre os benefícios que isto acarreta para o povo. Mas certa ocasião o Presidente Lula disse, referindo-se às suas ações no executivo federal, que "A gente não é como é aqueles que falam ‘eu mato a cobra e mostro o pau’. Ora, quem mata a cobra e mostra o pau não mostrou a cobra morta.”(Manaus, 26/11/2009). Bem, até agora a cobra que ele está mostrando morta, começou a ser morta com o pau de outro. Onde está a cobra morta? A propósito, alguma cobra foi morta? A víbora inflacionária vem sendo morta há muito mais de oito anos em nosso país. E lamentavelmente continuamos vendo as cobras de um horrendo sistema educacional, um mórbido sistema de saúde, das violentas desigualdades de oportunidades e da massacrante precariedade existencial, rastejando venenosamente sobre o terreno dos sonhos dos brasileiros.

Portanto, meus amigos, abramos os olhos, somos sapos que ainda moramos na lagoa e estão querendo nos convencer que conquistamos o mar. Não se iluda ainda mais! E, mais um lembrete: Não venda o seu voto. Isto é corrupção! Quem vende o voto está vendendo as próprias oportunidades de vida... Depois não reclame da vida que tem.

Dulcimar Menezes
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