JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

A arte finita da palavra

Publicado na edição 106 de Setembro de 2010

“A criatividade baseia-se na incerteza: o criativo erra muitas vezes, mas, quando acerta, revoluciona”. Domenico de Masi

“Sabedoria é a recompensa que a gente recebe depois de passar a vida ouvindo, quando teria preferido falar”.Doug Larson

No meu medo existe uma ponta de coragem. Por isso, continuo escrevendo para dizer quase nada ou muito pouco. As palavras tem força admirável, incomparável, mas não conseguem dizer tudo. Uma vida não se escreve definitivamente. Ninguém é um autorretrato só. Biografias não abarcam a vida em toda a sua riqueza. Uma vida contém várias outras, por mais que se recupere carne, sangue e todos os dramas. As palavras não bastam; faltam-nos, deixam pausas, espaços em branco. Como toda obra humana, as palavras são limitadas. Têm cheiro indizível, inexprimível, unção, mas são apenas sinais de que aspiramos transcendência em nossa imanência; marcas de nossa incompletude. Miguel de Cervantes escreveu “Dom Quixote”; Marcel Proust escreveu, em sete volumes, “Em busca do tempo perdido”; James Joyce, escreveu “”Ulisses” e “Finnegans Wake”; Sigmund Freud escreveu uma obra extensa e singular, entre outros.

Mesmo nessas obras monumentais, cuja magnitude intimida-nos, a vida ficou pela metade; faltou-lhe um pedaço. Sem conseguir açambarcar tudo, segue o homem a produzir obras, circulando a vida. É que a vida realmente não basta, como disse o poeta. Por melhor que seja, precisa-se da arte, para transcender, transfigurar-se. Para ir além do que tocamos e pisamos, precisamos desse auxílio luxuoso. A arte é a alquimia que transforma o bruto em nós. Estar diante de uma pintura, um quadro, uma escultura; ter em mãos um livro, um texto, um poema; parar para ouvir música; assistir cinema. Tudo isso faz com que avancemos muito mais longe do lugar onde podemos chegar.

A arte é essa força que nos conduz para além do que está visível. Eleva, educa, enleva, inebria, modula o olhar, os ouvidos, a alma, a sensibilidade. É uma aragem boa, um cheiro suave que nos faz voar, mesmo sem sair do lugar. É escrevendo, lutando com palavras que elas despem-se e deixam ver seus caprichos. É revolvendo todas essas possibilidades que encontro a finitude das palavras. A aventura, porém, é mágica e maravilhosa. Que assim seja.

Antônio Laért
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