JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

Vivo um tempo e num tempo

Publicado na edição 108 de Dezembro de 2010

- “Vê se encontra um tempo, para me encontrar sem contratempo, por algum tempo”. José Miguel Wisnik

- “Compositor de destinos, tambor de todos os rítmos, tempo tempo tempo tempo, entro num acordo contigo, tempo tempo tempo tempo”. Caetano Veloso

Vivo um tempo e num tempo. Esse tempo corre veloz. Conto meus anos e descubro, cada vez mais, que terei menos tempo para viver do que já vivi até agora. Talvez seja a crise de meio século de vida que esteja me acolhendo a alma. Achamos que controlamos o tempo, porque temos relógio de pulso, mas essa sensação não é real. A criança tem um tempo com gosto de eternidade; os jovens atropelam o tempo; os adultos convivem com ele para o bem e para o mal; homens e mulheres têm tempo diferentes. O tempo, essa entidade misteriosa, é doce, amargo e cruel. Os gregos tinham duas palavras para o tempo: khronos e kairos. O primeiro, referia-se ao tempo cronológico ou seqüencial, o tempo que se mede, o “tempo dos homens”, de natureza quantitativa; o segundo, era um momento indeterminado no tempo em que algo especial acontecia, a experiência do momento oportuno, o “tempo de Deus”, de natureza qualitativa, o tempo significativo. Oscilando entre a precariedade de nossa condição e aspiração de eternidade, o homem luta contra o tempo. A palavra escrita é uma das maneiras de permanecer além do tempo. Viver é fazer pregas na túnica que vestimos. Quem resolve o que vai fazer com o tempo somos nós. O tempo não vem etiquetado com rótulos. A revolução tecnológica estendeu o tempo? Depende, se esse admirável mundo novo for utilizado a favor ou contra? O único tempo que o homem contemporâneo tem tido é o hoje. Isso tem importado contornar o fluxo temporal que nos confina na tirania do aqui e agora que parece pretender colonizar o infinito. Para além disso, defender-se com a memória e os sonhos, é lançar um olhar sobre a vida. Abstrair o aqui e agora e habitar em pensamento aquilo que não é, interiorizando-se, aumenta nossa capacidade de espera e maturação. Agir no presente tendo em conta o futuro,
talvez seja o que conta. O enredo que escrevemos em nossas vidas depende dessa noção do tempo. Ele não é ativo transferível. O tempo é um fluxo que não se presta a ser poupado, acumulado, zerado, compensado. Basta procurar o tempo significativo. A saudade das coisas perdidas que precisamos restaurar. Os momentos de entrega e plenitude da vida: amor, fruição do belo. Estranha maravilha, estarmos juntos eu aqui e você aí. Os sonhos é que secretam o futuro.

Antônio Laért
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