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Colunistas - Neuza Carion

ASSUNTOS

Publicado na edição 110 de Abril de 2011

Já vi (ou li...) muito cronista se queixando da falta de assunto. Acabo de constatar que o oposto também se constitui num problema. Minha intenção era me manifestar sobre o mais recente acontecimento e foi tão grande o input de informação, tantas notícias de tragédias, naturais ou provocadas por violência, por abuso (de recursos, de poder), por ignorância, que resolvi amarrar tudo num saco só, com um gancho um tanto inusitado.

Ganhei um livro. O presente, além da demonstração de sensibilidade de quem ofertou meu presente predileto neste mês em que se comemora o dia do livro, também me ofereceu oportunidade de reflexão. Na corrente discussão sobre o fim (ou não) do livro impresso, ou da mídia impressa – seja como meio de preservação do ambiente ao se reduzir o corte de árvores para produção de papel, seja pela praticidade e economia de ser ter toda uma biblioteca em um só aparelho, o tablet – está embutida outra e maior questão: o afastamento do Homem de sua origem, sua raiz, sua natureza.

Não que seja possível, ao menos por enquanto. Nem que seja um objetivo explícito, ou um desejo. Mas é uma tendência, não sei se irreversível. Vejo isto na maneira como se evita o aprofundamento e privilegia o conhecimento raso: muito “o que” e pouco “por que”. Vejo isto na desqualificação do antigo e supervalorização do novo, inclusive nas relações humanas. Por isso pagamos um preço. Alto.

A vida é movimento e está em constante evolução. Não defendo nem desejo a estagnação: uso e usufruo, convicta, das facilidades e do conforto que a tecnologia proporciona. Vejo com admiração e às vezes com espanto, os avanços da ciência e seu uso na Medicina e na melhora da qualidade de vida. E fico perplexa que não se perceba que só chegamos onde estamos, trilhando um caminho que nos foi indicado, em qualquer instância, pelos que nos precederam, por meios que não podemos e não deveríamos negar.

O ser humano tem (ainda...) um corpo físico, que tem necessidades específicas, capacidades limitadas e se mantém o mesmo (sim, o mesmo) desde o tempo da pedra lascada. Uma “máquina” que precisa de combustível para se manter e agir: alimento ao menos três vezes por dia; um prazo determinado para realizar suas funções, seguindo ciclos impossíveis de alterar: nasce, cresce, produz e reproduz, morre; um tempo também predeterminado, e condições, para que seus circuitos funcionem: um tempo para circulação do sangue, para digestão do alimento, um tempo de repouso para recompor e restaurar a energia acumulada e, claro, um tempo de aprendizado para permitir a manutenção da vida e preservação da espécie.

A seleção natural eliminou os que não se adequavam às condições de cada tempo e cada local. Os que permaneceram, através das experiências acumuladas e transmitidas às gerações seguintes, criaram as culturas. Os meios de transmissão da cultura - creio podermos falar de técnicas - se mantiveram ao longo do tempo e curiosamente (ou não...) semelhantes ao redor do planeta. Essas técnicas incluíam a observação, a participação nas atividades, a transmissão oral, os rituais e, por que não, até as superstições, por exemplo.

Não há (ainda) como fugir dos ciclos e do tempo necessários para o funcionamento do nosso organismo. Inclusive no que diz respeito ao intelecto. O aprendizado, para ser eficaz, precisa de um tempo para conhecimento, entendimento e fixação. Não é possível, ainda, tratar o cérebro humano como um computador para implantação imediata de dados, até porque nós precisamos fazer algo que a máquina não faz: tomar decisões.  E isto se faz através da conexão de diversas informações arquivadas na nossa memória ao longo da vida. Por isto, acho perigoso tentar acelerar, sem critério, um processo que, se falhar nos seu propósito, coloca não só o indivíduo, mas toda a espécie em risco.

Ainda há tanto a ser pensado, mas estas elucubrações estão ficando longas e o espaço disponível não me permite ir além. Se eu escrevi alguma bobagem, cartas para o editor, por favor...

Neuza Carion
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