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Colunistas - Neuza Carion

Carnaval

Publicado na edição 109 de Fevereiro de 2011

O tema merece mais que umas poucas linhas. Estamos falando de uma manifestação da alma do povo brasileiro, que veio de muito longe - no tempo e no espaço – e cresceu até se tornar a maior em seu gênero em todo o mundo.  Nenhum Carnaval é igual ao brasileiro, nem uma festa popular, no mundo, tem sua dimensão, duração e impacto sobre a população.

Para os que nasceram e cresceram vendo e vivendo o carnaval, parece estranho, irreal, assistir ao seu desaparecimento tal como está acontecendo em Magé.

Fui apresentada ao carnaval por meus pais. Ele, especialmente, apesar de seu jeito reservado, fazia questão de nos envolver na folia, nos ver fantasiados, nos levar aos bailes e festejos de rua. Como já relatei uma vez, ele nos fazia dormir cantarolando Touradas em Madri, As Pastorinhas, Mamãe eu quero, Sassaricando, O teu cabelo não nega e tantas outras. Ainda tive o privilégio de vê-lo acalentar minha filha Julia cantando A-e-i-o-u, dabliú, dabliú na cartilha da Juju, Juju...

Seguindo sua cartilha, depois que cresci, torcia pela Escola favorita, conhecia todas as marchinhas, não perdia os bailes organizados todos os anos pela administração do prédio onde morávamos. Pulava a noite inteira. Foi aí que conheci, num carnaval, o meu companheiro de vida.

Depois de me tornar mãe, procurei levar meus pequenos, assim que tinham idade suficiente, para assistir e seguir blocos, a bailes infantis. Ajudava a se fantasiarem, quando já podiam sair sozinhos. Há muito as responsabilidades da vida me fizeram deixar de ser a foliã que fui, mas procurei passar para meus filhos o mesmo encantamento que recebi de meus pais. Acho que consegui.

E isto é o gancho para o que quero dizer por meio de minhas reminiscências: amor também se aprende e se ensina. É impossível amar o que não se conhece. Mais que descaso do poder público, observo que há desinteresse das pessoas em manter a tradição (vai meu bloco tristeza e pé no chão...), não se predispõem a se unir, investir e trabalhar para a realização da festa.

O poder público pode ornamentar a cidade, deve organizar e fiscalizar o espaço público e é claro que tem aí um interesse econômico: a vinda de visitantes aumenta a receita do comércio local e, automaticamente, a arrecadação de impostos. Isto justifica a oficialização de alguns eventos e a oferta de subsídios às agremiações que participam, mas não é papel do governo o planejamento e a execução dos eventos.

Além disso, quando o poder público começou a interferir, o fez porque os eventos já eram tradicionais e tinham uma magnitude que exigia regulamentação, a bem da ordem pública.

Mas o tempo passa e tudo muda. O bonde da História carrega o que já foi deixando espaço para o que será. O carnaval também mudou, é natural. O modo de entender e se expressar do século 21 não é igual ao do século 19. Ainda assim, em grandes centros, vem acontecendo, já há algum tempo, um movimento bem sucedido para resgatar o carnaval dentro de sua tradição. Sabemos que nos grandes centros há maior fluxo de capital e possibilidade de captar recursos, mas nós do interior temos maior facilidade de acesso a quem dispõe de recursos, maior proximidade e facilidade de comunicação entre os interessados e projetos bem menos dispendiosos. Mesmo com a omissão do poder público, vale a pena tentar.

Neuza Carion
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