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Colunistas - Antônio Seixas

O Mercado de Escravos da Piedade

Publicado na edição 111 de Maio de 2011

Ocupação mais antiga no 1º distrito de Magé, o bairro da Piedade guarda um importante patrimônio histórico local, com o sítio arqueológico do orago de Nossa Senhora da Piedade, sede da freguesia criada em 1696, a Capela de Santa Ana datada de 1737, o Poço Bento de Anchieta e as ruínas do mercado de escravos, no Porto Velho.

As ruínas do mercado de escravos, nas proximidades da Escola Adalberto Gomes Pinto Ferraz, até a década de 1950 resistiam a ação do tempo. Renato Peixoto dos Santos comenta que “ainda em Piedade existe, embora parcialmente destruído, o prédio no qual eram leiloados os escravos da época” (Magé, a terra do Dedo de Deus, 1957, p. 57).

O prédio do mercado era constituído de um único cômodo de terra batida e suas paredes, de pedra e óleo de baleia, possuíam mais de um metro de espessura.

Transferida a sede da freguesia para a atual Igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade, erguida em 1751, em cujo largo foi lido decreto de criação da Vila de Magé em 1789, o comércio de escravos se desenvolveu longo dos olhos da sociedade mageense até 04 de setembro de 1850, com a promulgação da Lei Eusébio de Queiroz, que extinguiu o tráfico atlântico.

Thalita de Oliveira Casadei, ao comentar a vigilância do litoral contra o desembarque de negros africanos, nos fala de uma determinação do Presidente da Província ao Juiz Municipal de Magé para que efetue “a prisão dos africanos ilicitamente importados e dos criminosos importadores” (Os escravos na terra fluminense, 2000, p. 160), afinal, os portos locais eram a porta de entrada dos traficantes para as Minas Gerais.

No período seguinte, de 1850 a 1866, a economia mageense ainda consegue manter-se estável graças à manutenção de sua produção agrícola, com a sua expansão para as terras de Guapimirim e o modesto aumento do número de escravos, através do tráfico interno.

Finalmente, a partir de 1870 até a abolição da escravatura, segundo Antônio Carlos Jucá de Sampaio, a sociedade mageense busca alternativas de investimento, com a aquisição de títulos públicos, gerando “um severo enfraquecimento da escravidão, e posteriormente da própria economia [...] já que o dinheiro assim arrecadado pelo Estado não retornava para a mesma” (Magé na crise do escravismo, 1994, p. 170).

Antônio Seixas
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