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Colunistas - Felipe Augusto dos Santos

A Doença Democrática

Publicado na edição 111 de Maio de 2011

Após a Primeira Guerra Mundial, o Brasil foi duramente atacado pela gripe espanhola, causando um grande número de mortes e paralisando a vida das grandes cidades. Só no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, calcula-se que a metade da população contraiu a gripe entre outubro e dezembro de 1918, sendo registradas cerca de quinze mil mortes. A imprensa carioca da época denominou a doença de “gripe democrática”, por atingir toda a população, independente da classe social (pois normalmente as doenças só atingiam os mais pobres). Na ocasião, o próprio ex-presidente da República, Francisco de Paula Rodrigues Alves, recém eleito para o seu segundo mandato, foi vitimado pela epidemia, falecendo em janeiro de 1919, antes de tomar posse.

Em Magé, a gripe espanhola também foi intensa, causando certo desespero à população. No entanto, a doença que mais grassou o município durante o século XX foi a malária, que desde o século anterior já era apontada como um grave problema da região.
Por estar localizado numa baixada litorânea, Magé possuía áreas bastante propícias para a difusão do impaludismo, como também era conhecida a malária. Por isso, políticas de melhoria das condições sanitárias passaram a se destacar nos debates relativos à saúde pública.

Desde a década de 1930, vinham sendo registrados seguidos casos da doença no
município, com a ocorrência significativa de óbitos. Somente entre os anos de 1942 e 1947, foram computados 16.388 casos de malária com vítimas fatais, o que explica, em parte, o baixo crescimento populacional de Magé nas décadas de 1940 e 50.

Vale lembrar que, no início dos anos de 1920, o município de Magé contava com cerca de dezoito mil habitantes e, após duas décadas, esse quantitativo sofreu um aumento muito pequeno, alcançando apenas 23 mil pessoas.

Outro fato que ilustra bastante o impacto causado pela malária em Magé foi a morte do prefeito José Ullmann, em 1933, em decorrência da doença. Nomeado interventor no município durante a Revolução de 1930, “Juca Ullmann”, como era conhecido, idealizou e iniciou a construção da estrada de rodagem que ligaria Magé ao Rio de Janeiro, obra considerada de bastante arrojo na época. Nesse empreendimento, o próprio prefeito chefiava a equipe de trabalhadores que se engajou na construção. Enfrentando brejos e alagadiços, ambientes propícios à malária, o “prefeito engenheiro” acabou contraindo a doença. Em junho de 1933, resolveu pedir demissão do cargo devido ao agravamento de seu estado de saúde, falecendo poucos meses depois, em setembro.

Consideramos que todos esses eventos contribuíram, direta ou indiretamente, tanto para instituir um sentimento de medo na população em relação à doença quanto para sinalizar a urgência na implementação de uma política de saúde efetiva no município. O Serviço de Profilaxia Rural, por exemplo, só foi inaugurado em Magé no ano de 1933, apesar de ter sido criado pelo Governo Federal em 1918.

Na realidade, não apenas Magé, mas diversos outros municípios litorâneos sofriam com os surtos de malária, gerando inclusive, no início da década de 1940, ações mais específicas por parte do governo brasileiro no combate a doença.

Desde os anos 40, com a criação do Serviço de Malária da Baixada Fluminense, foram empreendidas diversas ações profiláticas no município de Magé. Essas ações tinham como função principal combater o mosquito ainda em sua fase larvária. No entanto, essa iniciativa não obteve sucesso suficiente. Somente em novembro de 1947, o combate à malária foi intensificado e aperfeiçoado, através de uma notória mobilização contra a malária promovida pelo Serviço Nacional de Malária (SNM) em toda Baixada Fluminense. O alcance dessa campanha fez com que os casos graves de malária diminuíssem vertiginosamente, principalmente a partir do uso do DDT (abreviatura de dicloro-difenil-tricloretano, um possante inseticida).

Em Magé, o controle da doença também foi assegurado devido ao uso desse inseticida, aliado a fiscalização empreendida por guardas sanitários rurais, que realizavam coletas para exames laboratoriais junto à população, ao saneamento de charcos e a permanente construção de fossas, tendo à frente o Sr. Gustavo Ferraz (diretor do SNM em Magé) e o médico malariologista Irun Sant'Anna.

Os guardas sanitários da repartição chegaram a formar um time de futebol para disputar o campeonato municipal, promovido pela Liga Mageense de Desportos (LMD). Com o nome de Nacional Futebol Clube, o time foi vice-campeão mageense durante a década de 1940.

De fato, a campanha contra a malária foi tão promissora que, em 1955, foi registrado apenas um óbito no município de Magé motivado por essa “doença democrática”.

Felipe Augusto dos Santos
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