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Colunistas - Neuza Carion

Homenagem

Publicado na edição 111 de Maio de 2011

Ela era uma figura cativante, descolada, elegante, refinada. Acho que todos a viam assim. Era também uma alma generosa e jamais ouvi qualquer comentário a seu respeito que não fosse elogioso. Era uma pessoa digna, consciente tanto de seus limites quanto de sua força e de seu valor: não demonstrava sentir-se maior ou menor que qualquer outro ser humano, tratava a todos com a mesma maneira graciosa, calorosa, sem se intimidar, nem se deslumbrar, nem menosprezar.

Eu era pouco mais que uma adolescente quando a conheci. Aprendi com meus amigos – seus sobrinhos – a chamá-la de “tia” e foi assim que a chamei sempre. Adorava ouvir suas histórias de outros tempos e outro mundo. Estava sempre disposta a absorver tudo que ela tinha para compartilhar.

E quanto ela me ensinou! De forma simples, despretensiosa, mais com o exemplo que com palavras, com tolerância por minha imaturidade e inexperiência, com respeito por nossas diferenças, ela influenciou definitivamente meu modo de ver e ser.

Quando nossa convivência se tornou diária ensinou-me também coisas práticas, algumas próprias de sua cultura e suas tradições, outras triviais. Foi ela, por exemplo, quem conseguiu despertar meu interesse por aprender a cozinhar – coisa de que minha mãe havia desistido havia muito tempo... Também foi por seu intermédio que consegui ter alguma fluência no seu idioma materno - ela não falava Português bem e não tive mesmo alternativa... Ela não hesitava em corrigir, com doçura e firmeza, pronúncia, construções gramaticais e utilização inadequada de palavras e expressões.

Estou certa de que ela era tão afeiçoada a mim quanto eu a ela. Durante os muitos anos em que vivemos sob o mesmo teto nos apoiamos e cuidamos mutuamente: ela massageava carinhosamente meus pés grávidos, depois de um dia cansativo de trabalho; eu viajava um fim de semana inteiro só para buscar seus remédios e comprar seu chocolate favorito; para que eu pudesse trabalhar, dividindo o sustento da família, ela assumia a responsabilidade de supervisionar o cuidado com a casa e com as crianças. Era com ela, sempre disposta a ouvir e argumentar, que eu desabafava e apaziguava as minhas rusgas conjugais. Ainda faço isso, às vezes, em frente ao seu retrato.

Foi uma relação amorosa e sem pontos de tensão, rica de experiências, de aprendizado e respeito mútuos. São tantas – e boas – memórias, mesmo dos momentos de dificuldades, que renderiam, talvez, um livro. Hoje me encontro na mesma posição que era a sua e me esforço por corresponder à imagem que ela - tanto quanto minha própria mãe - me mostrou.

Por tudo que ela foi para mim, por tudo que devo a ela, de muitas formas, neste Dia das Mães quero prestar-lhe esta homenagem, até mesmo para fazer justiça a tantas outras também mães, como ela. É com muito orgulho e muita saudade que vou dedicar o dia à outra mãe da minha vida: Dona Emília, minha Tia Millie, a minha sogra.

Neuza Carion
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