JORNAL MILÊNIO VIP - A filosofia popular sobre a morte

Colunistas - Ivone Boechat

A filosofia popular sobre a morte

Publicado na edição 113 de Julho de 2011

 Quando eu era criança, o velório era um acontecimento.

A cidade era pequenina, então tudo se divulgava rápido. Em pouco tempo, o alto falante da igreja de onde o falecido era membro comunicava, em alto e bom som,  o passamento desta para uma  vida melhor, ou se usava  um carro anunciando detalhes: quem morreu, onde, idade, motivo do óbito.

A morte pairava nas piadas! Antes de acontecer o pior, até o doente bem humorado brincava: fiquei tão mal que por mais um pouco comia capim pela raiz; pensei que ia vestir um pijama de madeira, etc...Depois, se porventura o sujeito morresse,  aí, sim, a coisa era levada a sério e o  sepultamento era um  fato social marcante.

Naquele tempo, não se fechava uma tampa de caixão sem jogar perfume e pétalas de flores sobre o defunto.  Já fui encarregada de comprar muito perfume ruth para pulverizar por cima do morto. Nunca me esqueci do cheiro. O perfume, claro, perdia a personalidade, por causa do odor muito forte de cravo, cravina, brinco de princesa, de rosas miúdas de cores variadas. Não havia casa de venda de flores, as crianças saiam pedindo nas portas da casa. Já ouvi muita coisa.

- Esse defunto morava em cima da pedra?
- Vou dar, mas não sei nem se merece.
- Vá em paz.

Houve negação:
 -Pra aquele cara ?   Bata em outra porta.

A caravana de crianças saía em mutirão solidário e não respondia a nenhuma provocação, nada. Quem deu, tudo bem.

As coroas de flores eram artificiais, confeccionadas com papel crepom.  excepcionalmente, aparecia uma coroa de flor natural.

Se morresse um bebê, a partir de um ano, ou um jovem, as pessoas choravam mais, conhecendo ou não conhecendo o falecido. Quando morria um velhinho, a conformação era maior, mas mesmo assim, as pessoas choravam muito mais do que hoje. Na hora em que o caixão ia passando, na direção do cemitério, as portas do comércio ficavam quase fechadas. Os rádios eram desligados, os homens tiravam o chapéu, até o de palha, era muito silêncio.  Se fosse enterro de um católico, o sino da igreja católica batia compassado: tom...tom...tom... E eu ficava pensando, que pena! Devia tocar pra todo mundo.

Os velórios tinham longa duração. Os alto falantes, dependendo da importância do sujeito, davam uma nota, de tempo em tempo, com uma voz de relações públicas de necrotério: A família de fulano comunica a sua partida... anunciando a hora tradicional do sepultamento que nem era mais novidade pra ninguém: 16h. Todo mundo lá era enterrado nessa hora. Um dia falei para o meu pai que a nota  de falecimento estava errada, porque a pessoa que morre não parte, ela chega. E vi que ele acabou rindo.

A verdade é esta: chorava-se mais!  Ainda havia loja vendendo lenço pra todo lado e a gente, ao sair de casa, ouvia a recomendação: não se esqueça do lenço. Tinha lenço de tudo quanto era jeito: xadrez, de bolinha, de florzinha. Era muito lágrima! Nas festas de aniversário o que mais as pessoas ganhavam era caixa de lenço.

O luto pela morte era longo. Minha avó ficou de luto uns 20 anos e com as duas alianças no dedo: a dela e a do jovem marido falecido. Depois começou a vestir roupa  cinza, até se vestir, discretamente, como viúva eterna: roupas feitas com tecido de fundo preto e flores brancas.

O cemitério estampava, logo na entrada:  revertere ad locun tuun. Fui saber o que significava aquilo com o único funcionário no local: o coveiro. Fiquei espantada, porque o coveiro respondeu, automaticamente:  

- a tradução daquilo escrito ali é: - Volte ao teu lugar.

Ele “sabia” latin e eu detestava. Ele disse o que significava a frase, sem olhar para a parede, sabia de cor.

É assustador, mas aprendi a falar a única frase que eu sabia no primeiro ano do ginásio com o coveiro. E não deu outra. Na segunda feira, estufei o peito e disse para a minha colega de carteira escolar: revertere ad locun tuun. Ela me olhou assustada e eu cartei: aprendi latin (ela também tinha horror) e disse a frase, várias vezes, sem tropeçar na pronúncia e  ainda traduzi, sem dicionário. Ela ficou de boca aberta. Onde você aprendeu tudo isto. E eu nem parei para pensar:
- no cemitério.

Ela também passou a freqüentar os velórios!

Ivone Boechat
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