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Colunistas - Rosinha Matuck

Vergonha

Publicado na edição 114 de Agosto de 2011

Foi a reportagem, publicada em março deste ano, que ao apontar o cômico revelou o trágico. E foi exatamente assim a reação: primeiro o riso e depois, com a consciência, vergonha e revolta – inclusive contra o jornalista que ousou julgar toda uma população e lhe imputar sentimentos e opiniões, mesmo sem conhecê-la. Depois, já sem nenhuma vontade de rir e analisados os fatos, ficou claro que, para quem assiste de fora, parece lógico interpretar aceitação passiva como concordância.

Aos fatos: numa reportagem publicada no primeiro caderno da edição de domingo do Globo o jornalista Chico Otávio, no título do longo artigo (de página inteira!), declara que “na Baixada Fluminense, um Odorico Paraguaçu de saias, ex-prefeita Núbia Cozzolino protagoniza cenas dignas do personagem da novela e mostra que continua a mandar em Magé” e segue relatando “cenas”, entre o hilário e o horror, revelando mandos, desmandos, jogadas políticas de diversos calibres e...  assassinatos. Vergonha em cadeia nacional e internacional

Nós sabemos que há muito mais, mas, em primeiro lugar, uma incorreção: geograficamente Magé tem parte de seu território na Baixada Fluminense, mas na divisão geopolítica está na Região Serrana.

Em segundo lugar, Magé não é um município conivente com as arbitrariedades cometidas por seus governantes. No que se refere à aceitação pelo povo da política de execução sumária, ela nunca foi aceita. Sua população é apenas temerosa das consequências já vividas desde 1894, na ocasião dos Horrores de Magé. É claro que uma parte da maioria que deu seu voto para os que cometem barbaridades defende seus eleitos sem qualquer restrição a seus atos, mas é uma minoria em comparação com o total. Prova do que afirmo é o que acabamos de assistir: quando se sentiu segura, a população deu a maioria esmagadora de votos para quem representa uma postura diferente – no município inteiro.

Além disto, sabe-se dos métodos utilizados para conquistar votos. Mesmo no “curral” eleitoral (perdoem-me o termo politicamente incorreto, ainda que analogicamente muito adequado...) fora os votos dos que participam diretamente e também se locupletam, muitos votos foram comprados por parcos dinheirinhos àqueles que são mantidos na miséria e na ignorância, para garantir que se satisfaçam com esmolas. Outros foram impostos sob pena da perda de um meio de subsistência e ameaças outras.

O que foi mostrado pela mídia nesses últimos dias acendeu, ou reforçou, na população a consciência de que não pode aceitar ser administrado, nem representado, por quem se apresenta como palhaço. Até o Tiririca, que não teve educação formal e é palhaço, comporta-se e se apresenta de forma digna no exercício de seu cargo público.

Como aceitar como autoridade máxima do município alguém que, diz-se, declara que o bem público (ou pior, o cargo, que é eletivo!) foi herança paterna? Como levar a sério alguém que, segundo testemunhas e conforme divulgado numa transmissão radiofônica, para chamar a atenção abaixa a roupa e exibe sua anatomia (que nem ao menos é esteticamente agradável) em público? Que troca insultos/acusações com quem quer que a contrarie, inclusive sua própria família, e faz declarações bombásticas/mentirosas/delirantes para a mídia? E que se acha acima da lei e da ordem?

Isto sem falar do regime de autoritarismo e humilhações com os subordinados, especialmente os que, por falta (intencional?) de concurso público, são contratados e, portanto, passíveis de demissão sumária a qualquer tempo... Sem falar de outras informações que, por não haver como provar e por poderem ser enquadradas no artigo do Código Penal que trata dos crimes contra a honra, deixo de mencionar. Se bem que entendo que alguém com tais atitudes não necessita de mais ninguém para manchar sua honra.

De outro lado, há quem afirme que tudo leva a crer que de maluca esta pessoa não tem nada e, possivelmente assessorada por bons advogados, finge surtar para minimizar as conseqüências de seus inúmeros processos perante a Justiça. Caso assim seja, que seja interditada e afastada da possibilidade de interferir com os rumos do município. Já nos basta.

Estamos, neste artigo, falando de uma só pessoa, sabendo que não cometeu seus atos ilegais e/ou imorais sozinha, é só a figura de frente, talvez de fachada. Diante do quadro, nem se pode ter a certeza de que seja realmente líder de um grupo que ambiciona o poder e vê o mundo como se ainda estivéssemos no século 19, nos tempos do cangaço e dos “coronéis”.

A última eleição não deixou de ser um desagravo. Toda a imprensa escrita, falada, televisada, trata do assunto com destaque, de alguma forma redimindo nosso povo que pretende real desenvolvimento e progresso, dentro do que se espera do Brasil no século 21. Esperamos que, com esse grande constrangimento, tenha sido finalizado esse ciclo de miséria e vergonha.

Por  Rosinha Matuck & Neuza Carion      

Rosinha Matuck
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