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Colunistas - Neuza Carion

VIRADA

Publicado na edição 114 de Agosto de 2011

Virada ou, Escapando da cilada, vamos ganhar este jogo?

As deprimentes cenas de desordem e violência recentemente ocorridas em praça pública, bem no Centro de Magé, me remeteram a um artigo lido semanas atrás na revista dominical do Globo, em que a autora, Cristina Braga, relata a aflição de seu filhote da raça São Bernardo - um “cachorrãozinho” - perseguido por uma furiosa “microgalinha” e, sendo muito maior e mais forte “... Fugia aterrorizado, e a capacidade sem consciência sucumbia à coragem de quem tinha tão menos, mas sabia o que tinha”.

Deixo claro: não sou a favor de qualquer forma de violência. Mas assistir a reação de quem sempre foi maltratado e humilhado manifestando sua justa indignação lavou a minha alma e me fez especular se Magé não está, afinal, vivendo um momento de tomada de consciência, deixando de ser o fortão acuado e manipulado. Mesmo que a inversão de papéis não tenha sido uma construção coletiva espontânea, mas determinada por interesses, a dupla consciência - de estar sendo (ab)usado  e de sua própria força – está despertando, tomando corpo e é irreversível – espero e creio.

Assistir ao melodrama, às patuscadas e grosserias protagonizados por quem se propõe a ser a autoridade máxima na hierarquia local divulgados por todos os veículos de informação, para o Brasil e para o mundo, não pode fazer bem ao (bom) orgulho, à auto-imagem de ninguém. É a exposição ao ridículo que nos impõe padecer pela vergonha alheia. Para os protagonistas, ainda bem, me parece ser um caso explícito de suicídio político.

Por isto, ver as instâncias mais altas do poder público (afinal, suas próprias imagem e autoridade também ficam chamuscadas) se mobilizando, impondo o respeito à norma legal, foi gratificante. Tive o mesmo sentimento ao assistir a tomada do Complexo do Alemão, ano passado. Porém é preciso estar atento: o apoio da ordem institucional é imprescindível, uma garantia indispensável, mas é coadjuvante. Numa democracia o agente, o ator principal, tem que ser o corpo da sociedade que decide - como fez - com seu voto.

Em tempo: declaro minha solidariedade para com as pessoas sérias e dignas que não fazem por merecer ver o nome de sua família (por respeito a elas não o cito) achincalhado, ridicularizado, sinônimo do que é espúrio e imoral.

E encerro com as palavras que fecham o artigo citado no início: “excelência, sem ética e respeito ao próximo, jamais, jamais, vai levar ninguém a lugar algum”. Até porque “excelência”, neste caso específico, só se justifica como tratamento protocolar para quem ocupa cargo, não como indicativo de qualidade no que faz...

Neuza Carion
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