JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

Conquistr a Distância

Publicado na edição 114 de Agosto de 2011

Fernando Pessoa  tem um frase  luminosa, dentre  tantas: “conquistemos a distância, mas que seja nossa”.  Está  no poema Prece,  do livro Mensagem. Fico pensando no sentido dessa  frase, sempre desconcertante. Desejaria muito que ela fosse um mantra a ir, voltar e permanecer  em nossos pensamentos. Agora que está concluído o processo eleitoral,  com a sagração vitoriosa do Prefeito eleito, resta  adotar  para  todos nós o espírito e o sentido desta frase. Precisamos  mesmo conquistar  a distância que custou para todos nós esses anos de atraso, de mal trato e falta de zelo com tudo que é e sempre foi apenas nosso. A cidade precisa ser  construída com o tijolo de todos. Faltará sempre alguma coisa a preencher se cada um deixar de contribuir, fazer sua parte. Conquistar a distância da  auto-estima, do orgulho, da vontade  de ser melhor. Aprimorar o olhar. Criar  auras e epifanias.  Éramos  como avestruzes que enfiam a cabeça na areia, não querendo ver a realidade, enquanto outros nos depenaram o traseiro exposto. E, porque todos tiveram medo da opinião dos outros, alguns(todos) deixaram de ver(e ter opinião). Nesses tempos felizmente idos, produziu-se um discurso que ordenava  o que deveria(poderia) ser visto ou não. Sob as trevas desse tempo medieval, em plena modernidade do século XXI, foi agora derrubado nosso ´muro de fragoso´. E aí, desvelou-se o que estava oculto. É melhor mesmo examinar certas coisas no escuro. Nossa  distância da modernidade  aumentou muito. Falta-nos praças, bibliotecas, livrarias, teatros, equipamentos esportivos  e culturais. Falta-nos tudo. Nos últimos  anos  avançamos nada ou quase  nada.  Apenas deixamos de ter. Agora, pelo menos, mostramos ter  vergonha na cara. Conquistar  essa  distância que nos separa de tudo que perdemos ou deixamos de ser,  deve ser o mote, a pedra de toque, o slogan para avançar  à frente. Espera-se total transparência do prefeito eleito e contínua prestação de contas através de mecanismos outros que ultrapassem a obtusa e opaca câmara de  vereadores,  que já mostrou estar  à margem do que se revelou nas urnas. A representação desses  senhores  é questionável, na esteira da crise de representatividade dos parlamentos. É por isso que se deve construir outros canais de legitimação da representatividade junto à sociedade civil – igrejas, entidades representativas, escolas, colégios, movimentos sociais -  porque a força desses fará calar ou endireitar a  boca torta pelo cachimbo mal posicionado.  A Constituição Federal consagra mecanismos de participação direta  do povo no governo das coisas.  Para além disso,  é  possível nutrir   remota  esperança de que a  vetusta câmara saiba encontrar seu  protagonismo nesse novo cenário que se vislumbra, recuperando-se do ostracismo e da mordaça com que resignou-se dar  cabo de sua missão sob a republiqueta de fragoso. Um memorial deveria ser  erigido para  que jamais  se esquecesse  a nefasta herança  dessa  gente. Sonhar é preciso. É assim que se deve iniciar  a mudança conquistada  nas urnas. Que ela seja para o melhor e que represente a apropriação,o  uso e a significação de nossa cidade.

 

 

Antônio Laért
Conheça o perfil pessoal de nosso colunista ou outros artigos publicados por ele
Clique Aqui