JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

CIDADE AO MEIO

Publicado na edição 83 de Agosto de 2008

“O essencial é saber ver, quando se vê, sem estar a pensar ”.
Fernando Pessoa (1888-1935)

De uma eleição sempre se podem esperar conseqüências... A paixão que move uma disputa eleitoral faz com que invariavelmente se tome o partido de um determinado candidato em detrimento de um outro. Assim, famílias se dividem; amigos se afastam; irmãos de uma mesma fé deixam de se reconhecer; companheiros de copo e bar param de beber e jogar conversa fora; os que antes cantavam juntos, perdem o tom ... e por aí afora, a cada quatro anos, estragos consideráveis acometem uma comunidade, abalando crenças estabelecidas. De hábito, tal situação se dá em pleitos para prefeito e vereadores. Parte-se a coisa que se pretende inteira. É como se alguns tivessem perdido a inteireza para virar como que metade de si mesmos, metade boa ou má, pouco importa, e passassem a ver o mundo, a cidade, os fastos, a partir dessa visão parcial ... Sim, nesse tempo de paixões à flor da pele, há quem entenda que perder uma metade é a condição primeira para ver melhor.

Por esta visão, os seres mutilados contentam-se com a idéia de que a metade que lhes resta é mil vezes mais visceral, tendo a pretensão de ainda assim poder sobreviver ... Com efeito, tudo aceitam partido ao meio e talhado segundo à própria imagem, pois entendem que beleza, sapiência e justiça existem somente no que é feito de pedaços. São seres subtraídos. vivemos sob o signo da cidade cindida, porque a inteireza dos habitantes está comprometida pela visão fragmentada; pela adesão partidária em que nos alinhamos e pelo ideário que defendemos. A experiência de se ser partido remete à tristeza que cada um sente pela própria incompletitude. Esperar é inato à criatura ... Revelado o resultado das urnas, os eleitores lentamente recobram a inteireza da sua cidadania, fazendo com que se fundam partes antes separadas. A cidade recobra a inteireza, refundem-se as partes dispersas. Muitas vezes, na vida, também é assim ... Quando julgamos encontrarmo-nos, antes, precisamos mesmo é partirmo-nos.

Antônio Laért
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