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Colunistas - Neuza Carion

UM OUTRO OLHAR SOBRE O MEDO

Publicado na edição 83 de Agosto de 2008

Parece que atualmente vivemos sob o signo dele. Parece que ele se tornou parte de nosso dia-a-dia. Vivemos num estado de permanente insegurança, assustados com as condições da vida moderna, com o estresse, a violência, a doença, o desequilíbrio, a desesperança, o descaso, o desafeto, o desamor. Parece que o que acreditávamos fazer parte da condição humana está se perdendo e já não nos reconhecemos, nem sabemos como agir, ou reagir. Não confiamos. Temos medo como nunca antes na história deste planeta - que também parece desgovernado e nos amedronta. Parece assustador? Vejamos. Nunca, em sua ainda curta passagem sobre a Terra, o Homem viveu sem medo. No começo havia o medo dos predadores, das forças da Natureza. Depois veio o medo da cólera dos deuses, das mazelas da vida em sociedade e até da ausência da sociedade, que é a solidão. O medo, como a dor, é indispensável à sobrevivência e foi fator importante na preservação e na evolução da espécie. Impossível viver sem medo. Como a dor, o medo é um sinal, um aviso de que há perigo e sentir medo não é o problema, na verdade é parte da solução: significa que já identificamos e assim podemos evitar ou eliminar o que é, ou pode vir a ser uma ameaça. Problema, por um lado, é o que fazemos com o medo e o que deixamos que faça conosco, porque há medos que nos mobilizam e medos que nos paralisam. Por outro lado - e muito mais importante - problema mesmo são as causas reais e profundas do medo, aquelas condições de vida que levaram a humanidade a uma gigantesca ruptura, uma divisão entre os poucos que têm e os muitos que não têm poder aquisitivo, poder político, conhecimento. Estamos vivendo uma era de crise e transformação sem registro de precedente na História, por sua dimensão e velocidade. E é surpreendente como as pessoas não querem ou não conseguem enxergar. Fala-se muito na “vida sem medo”, o que já vimos que é um contra-senso. Fazem passeatas (na orla marítima), manifestações (na Zona Sul), dão entrevistas para a televisão. Estão tentando impressionar quem? O poder público? Seus pares? Acham que os que praticam a violência, pobres ou ricos, vão se sensibilizar? Acham que poder público vai resolver o problema por decreto? Acham que o setor de segurança pública é formado por pessoas que se identificam com seus pontos de vista? Melhor seria que começassem a pensar numa vida mais justa, sem miséria e conseqüentemente sem a violência gerada pela desigualdade. É impossível esperar que a grande massa de despossuídos, tendo agora acesso à informação via televisão, internet, cinema - mídia em geral - além da escola, não adquira também os desejos pelos bens e serviços até então “exclusivos” (em todos os sentidos que esta palavra tenha...) das classes privilegiadas. Impossível esperar que esta parte da população, numericamente muito maior, não se levante e se esforce para, sem nenhuma dor de consciência, tomar à força o que até agora, com acinte e deboche lhe foi negado, também sem nenhuma dor de consciência. Esta é a razão do grande medo. Agora é a hora em que os que foram açoitados levantam o chicote. Agora é a hora em que a “lei” não escrita da maioria está sendo aplicada, à revelia de quem “manda”. Agora é a hora de ditarem as tendências de moda, de vocabulário, de manifestações artístico-culturais e, também, das normas morais, dos usos e costumes. Alguma dúvida? Agora é a hora do Crééééééu. Perguntem a qualquer criança de três anos. Das classes média e alta... Perguntem aos adolescentes e jovens que sobem a favela ou se matam nas boates. Os paradigmas estão mudando. Não vê quem não quer. Não, o problema não é o medo. O medo é consequência do problema. A reação de cada pessoa ao medo depende muito das circunstâncias, mas também do preparo que se tem para enfrentá-lo. E bom mesmo é prevenir, eliminando as causas que levam ao medo... Não? Neuza Carion

Neuza Carion
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