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Colunistas - Antônio Laért

Fragmento de Conversa Solo I

Publicado na edição 116 de Novembro de 2011

Dizem que a gente  inventa  a memória. Quando  me  perguntam de  onde  sou  me apresso em responder: Magé. Daí,  vem logo a  segunda questão: onde fica, no Grande Rio? Então esclareço: não, o Rio é que fica  na ‘Grande  Magé’.

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Dias  desse  recebi  um  maço  com  mais  de  200 folhas  para  ler  e  emitir  opinião sincera  a  um  amigo  sobre  possível  livro a ser  publicado.  Abri o  embrulho  e  olhei o material. Li, reli,  fiz  anotações, sublinhei  e cá comigo  concluí  que recomendaria  a não publicação do material. Mas, fiquei enredado  pelo dilema: como dizer  isso a quem  produziu toda  essa   maçada  de mais de  200 folhas  e  gastou  horas  a fio  na produção desse  material  que  recebi  em arte  final ? O que dizer  nessas  horas  a  um amigo ?   Emitir  uma  opinião sincera – tudo que ele  esperava  de  mim – ou estabelecer um silêncio, uma solidão, uma distância, uma concentração, um deter-se ?

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Um ofício  foi enviado  ao destinatário  com a finalidade  de  obter  a contratação de  uma pessoa. Sua  expedição, fez  reacender nos interessados o frescor  e o perfume da esperança, acalentando a crença de que o mesmo alcançaria  a  finalidade  para a qual  fora  emitido.  Mas  o tempo  passou,  a resposta  tardou  e eis  que  fui colocado  no encalço desse  ofício.  Andei  pra lá  e pra cá  e então desvelou-se para mim  a verdade. E aí ? entregá-la de bandeja  ou deixar   no ar  o perfume da  esperança que  ainda exalava  seu cheiro ?  Até  que  ponto devemos  sublimar os sonhos  com  a  aridez  e a dor da  verdade ?  Eis  um acento trágico da  contemporaneidade!

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Jogar  livro  fora ?  Quem  anunciou e recomendou essa  tolice ?  Livro é um tesouro  que  deve  ser  guardado a sete  chaves.  Por pior que seja,  tem lá seu valor. E, num país  que, como o nosso,  lê  apenas 4,7  livros  anuais  por  habitante,  neles incluídos os didáticos  e  tem  14 milhões  de analfabetos, esse tolo deveria é ser preso, por essa  patética  pregação da ignorância.  Para  além de  censuras  de  qualquer  ordem,  a arte é o que  transfigura  a vida.   

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Todos  nós deixamos  a  vida  passar  nas idas  e vindas entre casa  e trabalho.  Em grande  parte,  aí está o caminho de nossa memória  afetiva. A rotina  tem  mesmo seus  encantos.


Antônio Laért
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