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Colunistas - Rosinha Matuck

Garrincha

Publicado na edição 118 de Janeiro de 2012

 

 

Se há um Deus que regula o futebol, esse Deus é, sobretudo, irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um Deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortalque ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho.  

Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

 

 

Nascido em Magé a 18 de outubro de 1933, Manuel Francisco dos Santos, Mané Garrincha, ou apenas Garrincha, foi um dos maiores jogadores da história do futebol em todos os tempos. Reconhecido como o maior dos dribladores, o "Anjo de Pernas Tortas" foi um dos heróis da conquista das Copas do Mundo FIFA de 1958 e 1962 para o Brasil. 

Pela Seleção Brasileira jogou ainda na Taça Bernardo O\'Higgins (1955, 1959 e 1961),  na Taça Oswaldo Cruz (1958, 1961 e 1962), na Copa Rocca (1960) e - embora estas partidas não tenham valor para estatísticas - participou de vários amistosos pelo Brasil e pelo exterior, integrando o Milionários (formado por veteranos com carreiras encerradas), o time da AGAP-RJ (Associação de Garantia ao Atleta Profissional do Estado do Rio de Janeiro), diversas equipes amadoras da Itália e clubes sem expressão do interior do Brasil.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 O genial jogador ganhou diversos prêmios individuais: Bola de Ouro da Copa do Mundo da FIFA 1962; All-Star Team da Copa do Mundo da FIFA 1958 e 1962; Segundo Maior Jogador Brasileiro do Século XX IFFHS (1999); Quarto Maior Jogador Sulamericano do Século XX IFFHS (1999); Oitavo Maior Jogador do Mundo do Século XX IFFHS (1999);  Décimo Terceiro Maior Jogador do século XX pela revista France Football (1999); Vigésimo Maior Jogador do século XX pela revista Inglesa World Soccer (2000); Sétimo Maior Jogador do Século XX pelo Grande Júri FIFA (2000); Seleção de Futebol do Século XX. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sua genialidade e seu carisma inspiraram inúmeros “causos”,  histórias, anedotas  e foram eternizados nas palavras de poetas, como as de  Carlos Drummond de Andrade que abrem este artigo, numa crônica publicada no Jornal do Brasil, um dia após sua morte ocorrida no Rio de Janeiro a 20 de janeiro de 1983

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A história do grande gênio Garrincha é para falar da indignação contra a exclusão do município de Magé dos festejos da copa de 2014. Uma escolha injusta, sem nexo, aleatória, hipócrita e preconceituosa, pois foi aqui, em Pau Grande, que o Mané das pernas tortas, o gênio do futebol brasileiro - que encantou o mundo e foi  a alegria do povo - viveu e está enterrado. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na capital federal, ao custo de R$ 1,1 bilhão - mais caro que o Ninho de Pássaro e o Olímpico de Berlim - estão construindo um estádio com seu nome. Nada contra, apenas um referencial. E - haja briga - colocam seu nome ou não?

R$ 1,1 bilhão é mais do que os R$ 875 milhões que a presidente Dilma Rousseff liberou para as vítimas das enchentes na Região Serrana do Rio de Janeiro; R$ 1,1 bilhão é  73% de todo o orçamento do Ministério do Esporte no ano passado; R$ 1 bilhão seria o salário de 1690 atletas recebendo R$ 5 mil por mês durante 10 anos!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um bilhão de reais daria para pagar a construção do Estádio Olímpico de Pequim mais a reforma do Estádio Olímpico de Berlim e ainda sobrariam alguns trocados para serem gastos com os atletas do Distrito Federal que não têm patrocínio... Bem, isto não é o nosso mote, apenas curiosidade. Enquanto isto, a gente assiste  apalermada que Magé não foi incluída no roteiro turístico da Copa em 2014, para o qual dez cidades do Estado do Rio foram contempladas com verbas do Ministério do Turismo. Me indigno e dou aqui a deixa, para que o Governo do Rumo Certo também se indigne e não deixe Magé, mais uma vez, fora da Grande Festa.

E já que iniciamos com um grande poeta, encerramos com outro:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O anjo de pernas tortas

A um passe de Didi, Garrincha avança

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Colado o couro aos pés, o olhar atento

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dribla um, dribla dois, depois descansa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como a medir o lance do momento.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais rápido que o próprio pensamento,

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dribla mais um, mais dois; a bola trança

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Feliz, entre seus pés – um pé de vento!
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Num só transporte, a multidão contrita

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em ato de morte se levanta e grita

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Seu uníssono canto de esperança.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Garrincha, o anjo, escuta e atende: Gooooool!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É pura imagem: um G que chuta um O

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dentro da meta, um L. É pura dança!  

Vinicius de Moraes 

Rosinha Matuck
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