JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

Fragmentos de conversas solo III

Publicado na edição 118 de Janeiro de 2012

- “Não é fácil ter paciência diante dos que têm excesso de paciência”.  Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987)

 
- "Tudo seria fácil, não fossem as dificuldades".
Barão de Itararé (1895-1971) 

Um dia  cheguei a pensar que pudesse  passar  noções de cidadania para  as pessoas, fazendo um curso regular  e seriado  sobre o tema,  ministrado  para  ´lideranças´. Fiz a grade, a discuti  com pessoas, arregimentei  instrutores, reuni bibliografia, textos, exercícios, dinâmicas, até que me deparei com a entrevista de  um francês que me desconcertou, reduzindo todo esse  meu projeto a pó. Cidadania, dizia ele, só se aprende fazendo. Lutando por direitos, fechando ruas, manifestando-se, fazendo passeatas. Nada ensina melhor. Li, reli, tresli a entrevista, sublinhei-a  várias  vezes  e  me convenci que  tinha razão. O prédio que pretendia  edificar  desabou no alicerce.

Gosto muito de  ler  jornal velho, sem a  urgência do dia e o frêmito da hora. Em casa, sempre tenho alguns  exemplares  de  um tempo passado. Por vezes, dispenso-me, com gosto, da  necessidade de ter  novidades pela frente. Essa  anormalidade me acompanha. Na praia, quando ia dar um mergulho, já houve  quem tivesse pedido autorização para  olhar meu jornal.  Autorizei  e adverti: sem problemas, só que é de um mês atrás. O interessado desinteressou-se de imediato. Para além da análise pouco lisonjeira sobre minha esquisitice, achei  ótimo: meu exemplar não sofreria qualquer desordem.

Adoro  títulos de livros, discos, filmes, canções.  Adorar, somente a Deus, me repreenderia tia Zizi. Gosto muito então. Por vezes, os  tomo  sob empréstimo, numa espécie  de  furto de uso impunível, porque logo em seguida  os devolvo. É  só abri  o coração para  algumas  coisas para  se  dar  contar  da  força  que tem:  a  música, o filme, o livro, os  títulos, os  nomes. Isso  move  montanhas... Desinstala o mais empedernido ser.  O mais  gelado e  radical.

Gosto  de ambientes em que  seja garantido espaço para  as  idéias  germinar.... Lugares que a aniquilam, não a favoreçam  e não são propícios, pulo fora...

Pessoa  nos fez  refletir:
Não haverá um cansaço das  coisas, de todas  as coisas, como das  pernas e dos braços ? Um cansaço de existir, de  ser.  Os  políticos  são opacos  e  impermeáveis  a isso ?  De onde  vêm  esses  seres ? Não deveria haver  um cansaço dessas coisas  também ? 

Antônio Laért
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