JORNAL MILÊNIO VIP - Mundo Animal

Colunistas - Neuza Carion

Mundo Animal

Publicado na edição 118 de Janeiro de 2012

Tudo começou com uma piada da Mileninha, uma sátira, usando figuras do reino animal. Pobres animais... Criou-se uma polêmica que não para de crescer.

Os primeiros a se mostrarem ofendidos foram os representantes das minhocas, os minhocultores, a reclamar da comparação pejorativa (e diminutiva...) com as peçonhentas vilãs bíblicas, as cobras. Uma injustiça com as inocentes minhocas, incapazes, em qualquer hipótese, de causar mal a quem quer que seja e que, apesar do diminuto tamanho, são de imensa utilidade: aram a terra e mantêm a sua fertilidade, trabalhando a troco de restos e excremento, transformando-os no valioso húmus, o adubo perfeito. São poderosas para o bem, nunca para o mal.

Apesar disto, são submetidas a um holocausto, cruelmente sacrificadas como isca ou transformadas em ração para peixes, alimento dos humanos. Isto quando não são elas mesmas as iguarias - de alto valor protéico - degustadas em cardápios refinados para gourmets exigentes. Minhocas são, no mínimo, tão úteis quanto as conceituadíssimas – e potencialmente agressivas – abelhas e até mais, já que nunca ouvi falar de alguém que coma abelhas, a não ser as lavadeiras (não as representantes da extinta categoria profissional, é claro, mas os insetos, também conhecidos por “pindá”). Mas peixes, abelhas e pindás não participam desta história, então voltemos à origem – e não estou falando do Gênesis, embora o objeto de nossa prosa também estivesse lá...

A defesa das minhocas provocou reação dos ambientalistas em favor das cobras, que têm o seu papel na cadeia alimentar e no equilíbrio ecológico – são até exportadas com esta finalidade! Além disso, nem todas são venenosas e, exceto por ratos e sapos, atacam só para se defender. As constritoras, que esmagam e engolem um boi inteiro, fazem a mesma coisa com a nossa espécie, mas apenas quando invadimos seu território.  É injusta sua fama de traiçoeira: elas nunca prometeram lealdade ou fizeram pacto de não agressão. Algumas até avisam antes de atacar.  E – pasmem! – se não sabiam, saibam: não sei se são todas, mas mesmo cobras venenosas são comestíveis, há quem aprecie muito o sabor de sua carne.

Agora, por último, foi introduzido mais um elemento na discussão: os ratos. Estes, até agora, indefesos. Fora a aparência simpática de alguns da espécie (Mickey, Topo Gigio, Stuart Little e o herói de Ratatouille, entre outros, que o digam), nada conheço a seu favor, a não ser fazer parte da tal cadeia alimentar, que justifica a existência das cobras, que os comem. Haverá quem os defenda? Alguém faminto, perdido no deserto, talvez? Ou mesmo estes preferirão os gafanhotos?

De fora, até agora, os inseparáveis companheiros reptílicos das cobras: os lagartos. Aliás, alguém sabe por que eles entraram na expressão?

Deste papo zoológico podemos também deduzir a confirmação da teoria da relatividade: tudo depende de tudo. No tempo e no lugar certo, todos são úteis e têm um papel a cumprir – mesmo que alguém seja incomodado.

Só estranhei que os defensores das cobras não tenham reclamado da comparação com o “Rei” da Criação, a auto-intitulada “obra prima” do Criador, o primata que sabe que sabe, entende perfeitamente de causas e conseqüências, tem as informações e as manipula a seu prazer e conveniência, por achar que é seu direito divino, não se importando nem mesmo com sua própria espécie, nem com o que seus atos possam trazer, ainda que seja o fim.

Por ora, vamos rir, já que é uma prerrogativa nossa, e é mesmo o melhor remédio. 

Neuza Carion
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