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Colunistas - Neuza Carion

Acabou nosso Carnaval

Publicado na edição 119 de Fervereiro/Março de 2012

E agora o ano começa de “verdade”. Mas antes de seguir em frente é preciso dar uma olhadinha para trás, para ajudar a ajustar o rumo.

Cerca de uma semana antes do Carnaval, com o início dos desfiles de blocos, algumas ruas – ou partes delas – foram fechadas para o trânsito em certos horários, o que provocou alguma retenção no tráfego e alteração no trajeto dos ônibus, naturalmente. Não seria nenhum problema se não tivessem – até onde sei - esquecido de se preparar e mais um pequeno detalhe: avisar aos interessados.

Nenhuma novidade, todo ano é a mesma coisa, podem dizer. É verdade. Há mais de trinta anos eu mesma observo – e sofro as consequências – do descaso. Gerações de cidadãos, governos e empresas se sucedem, mudamos de século e... tudo como d’antes. Os prejudicados resmungam, reclamam, mas nada muda. Até porque a reclamação fica na boca pequena, não é levada a quem tem o poder de solucionar.

Entre os absurdos: trechos da principal via de acesso e saída da cidade e seu centro administrativo/comercial interditados ao trânsito; veículos de grande porte passando por ruas estreitas, com carros estacionados, e obrigados a fazer curvas em ângulo reto sem espaço para manobra; trajetos mudados a cada dia, por vezes desviados totalmente de sua rota habitual, sem qualquer aviso, obrigando os usuários a percorrer grandes distâncias; motoristas e passageiros sem orientação sobre onde ir e como agir. Já vi, tempos atrás, caso de modificarem e/ou suspenderem horários, às vezes o último, deixando os usuários sem transporte até o dia seguinte. É assim que a gente pretende ser lembrado e inserido nos projetos e roteiros turísticos?

Já que não há e não se preparam locais adequados para receber as manifestações populares, já que optam por manter os trajetos tradicionais dos desfiles e já que a prática se repete regularmente, qual a dificuldade em se fazer uma previsão, organizar, estabelecer normas de conduta, divulgá-las e designar agentes de orientação/fiscalização?

Trocando em miúdos: a Secretaria Municipal competente faz o estudo e a análise dos elementos envolvidos (locais, dias, horários, trajetos dos ônibus), elabora o projeto com as mudanças provisórias necessárias e comunica à Polícia Militar, à Guarda Municipal, às empresas de transporte público e, pela mídia, à população. As empresas, por sua vez, podem afixar cartazes em seus próprios carros e nos terminais rodoviários. Fácil e sem custo significativo, não? Isto seria demonstração de respeito pelo cidadão/contribuinte/consumidor.

Propositalmente deixo para o fim o último responsável pelo problema: o destinatário do benefício, o quarto poder, o povo. A gente só pode esperar respeito se a gente se der ao respeito. A gente é visto pelo que a gente mostra. A gente só vai ter o bônus se aceitar o ônus.

Este tipo de problema não ocorre só no Carnaval, nem só nestas circunstâncias. Se Magé negar a realidade que a envolve, as normas do mundo globalizado; se não se preparar, através da educação de seus jovens, para se ver como ator e agente deste mundo do século XXI, ainda que sem abrir mão de sua individualidade, jamais será aceito, respeitado e valorizado.

O Carnaval e suas fantasias são uma maravilha, mas com tudo que têm de positivo todos os seus significados - inclusive a quebra da rotina, a ruptura com a normalidade, e até por causa disto - precisa acabar.


Neuza Carion
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