JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Felipe Augusto dos Santos

De volta ao passado...

Publicado na edição 119 de Fervereiro/Março de 2012

Quem se dispõe a conhecer um pouco sobre Magé, logo percebe a relevância histórica do município. Sendo uma das primeiras regiões a serem desbravadas no atual Estado do Rio de Janeiro, no fundo da Baía de Guanabara, o território mageense reúne verdadeiros tesouros, bem como curiosidades históricas diversas: as sesmarias em direção a Serra dos Órgãos, as igrejas seculares, o Caminho do Ouro, o Celeiro da Corte, a Primeira Estrada de Ferro do Brasil, os Horrores de Magé, a industrialização têxtil... enfim, a importância do passado do município é indiscutível.

Entretanto, nesses últimos 15 anos de pesquisas que venho realizando, observo uma certa superficialidade no que tange às políticas públicas municipais que visam proteger, valorizar e divulgar o Patrimônio Histórico mageense. Como já destacamos em outras oportunidades, o município não dispõe de nenhuma instituição pública confiável voltada para a preservação de acervos locais. Este cenário, inclusive, tem desestimulado diversos estudantes mageenses na área de Ciências Humanas. Já presenciei diversos colegas justificando a opção de não pesquisar o município devido a “falta de fontes documentais preservadas e disponibilizadas ao público”. De fato, o acesso às fontes é muito difícil. Porém, com paciência, organização e cruzamento de dados, é possível vislumbrar verdadeiros tesouros históricos sobre Magé: cartórios, álbuns fotográficos de família, periódicos micro-filmados na Biblioteca Nacional, depoimentos de moradores, atas da Câmara Vereadores...

As atas da Câmara, por exemplo, consegui pesquisá-las durante o mestrado. A cada visita ao acervo, sentia uma alegria enorme de poder reconstituir parte da história mageense através das fontes legislativas, entretanto, ao mesmo tempo, uma enorme tristeza ao ver a falta de valorização daquele acervo por parte dos diretores da Câmara, com livros de atas do século XIX se deteriorando, apesar dos esforços dos funcionários responsáveis pelo arquivo em minimizar os prejuízos. Tenho certeza de que qualquer universidade pública se interessaria em restaurar tais documentos, bastando somente a Câmara demonstrar interesse nesse sentido.

E o pior foi encontrar durante a pesquisa uma ata, datada de 1952, em que o vereador Alcebíades de Castro Teixeira, o “Seu Bibe” (saudoso pesquisador da história mageense), se ofereceu para organizar o arquivo da Câmara, “lamentando surpreender documentos valiosíssimos jogados no porão”. Sinal de que, passados 60 anos, a situação mudou muito pouco...

Diversas câmaras municipais fluminenses executam projetos de restauração, digitalização e transcrição de suas atas, inclusive disponibilizado-as na internet para consulta. Magé não poderia fazer o mesmo?

Entretanto, apesar de todas essas dificuldades com acervos, gostaria de destacar que o município de Magé tem “bombado” – como se diz por aí – nas pesquisas acadêmicas. Uma série de monografias, dissertações de mestrado e teses de doutorado têm sido defendidas nas universidades nos últimos anos, cujo tema ou cenário pesquisado é justamente o município. Nesse sentido, também é papel do poder público local incentivar a divulgação e publicação destes trabalhos, para que o grande público tenha acesso, sobretudo os leitores mageenses.

Desse modo, ao contrário do título daquele famoso filme da década de 1980, Magé precisa viajar “de volta para o passado” a fim de conhecer a sua história. Mas não somente como algo curioso, nostálgico ou pitoresco. Como disse recentemente o historiador Boris Fausto, “não há cidadania plena sem conhecimento da história”. Portanto, todos nós mageenses precisamos retornar ao passado para transformar nosso futuro.

SATISFAÇÃO AOS LEITORES: No início de 2011, fiquei muito feliz ao receber o convite para publicar matérias sobre história de Magé no Milênio Vip. Encarei esta empreitada com muita responsabilidade e alegria. Entretanto, nos últimos meses, devido a outros compromissos profissionais, tenho tido dificuldade em permanecer no jornal. Por isso, gostaria de informar aos estimados leitores que terei de suspender minha participação como colunista temporariamente. Mas espero retornar em breve. Até a próxima!   



Felipe Augusto dos Santos
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