JORNAL MILÊNIO VIP - Vergonha Alheia

Colunistas - Neuza Carion

Vergonha Alheia

Publicado na edição 120 de Abril de 2012

Ao assistir à matéria veiculada no Fantástico sobre corrupção, com entrevistas gravadas nas empresas que pagam propina, não fiquei surpresa, é claro, e a indignação que senti foi compatível com o calejamento já produzido por outras incontáveis denúncias constantemente divulgadas.

O sentimento que me tomou foi vergonha, vergonha alheia, pelos espertalhões que pagaram um mico federal, para o país e para o mundo. Fiquei especialmente mortificadaada pela mulher, cheia de tiradas e gracejos, toda toda, jogando charme, força na peruca, falando de  ética (!!!!!), sem saber que estava oferecendo um espetáculo de desfaçatez. Seria cômico se não fosse trágico.

Ainda me abala imaginar as consequências da exposição negativa. Para mim parece no mínimo traumático ver a própria imagem (des)manchada de maneira tão explícita,  contundente, por uma culpa indefensável. Imagino que, além da dignidade, estas pessoas estão perdendo (ao menos de imediato) o emprego e a possibilidade de conseguir outro; que terão dificuldade de estar em público, para qualquer tipo de atividade, até mesmo ir ao supermercado; que se sentirão humilhadas perante as pessoas com quem se relacionam de qualquer forma - familiares, amigos, colegas, conhecidos do clube, da igreja, da academia. Que vergonha!  Acho que é um caso de análise para o resto da vida.

Conforme a notícia se espalhou, inclusive por outras emissoras e outros veículos de comunicação, e se manteve em foco ao longo de (até este momento) quase duas semanas, cheguei a interpretar a insistência como exagero, sensacionalismo. Mas me redimo: avaliando melhor, vejo que meu desconforto não estava deixando que eu enxergasse o óbvio.

Em primeiro lugar, o sentimento de vergonha (alheia) é meu. Creio que os envolvidos estão frustrados, talvez desapontados, certamente irados, mas não acredito que estejam envergonhados, muito menos arrependidos. É uma questão de foro íntimo, de caráter. Acho que são convictos de que o que faziam é natural, aceitável, e seriam tolos se não o fizessem.

Em segundo lugar, não vejo que sensacionalismo seja a questão: o que todos assistiram é inquestionável, irrefutável, não houve exagero ou aumento do que foi dito, nem houve necessidade de interpretações. Tudo foi muito claramente posto e explicado pelos próprios denunciados.

Em terceiro lugar, a emissora, a princípio, cumpriu com sua proposta de atuação, que é noticiar. Ao insistir, cumpre com o papel social de alertar para as distorções de pensamento e comportamento de alguns que prejudicam a maioria; fornece elementos para a ação do poder público nas medidas necessárias para penalizar e impedir a realização de atos antissociais; por fim, e mais importante: provoca o estranhamento, a indignação, a revolta da sociedade, reage contra aceitação e condescendência com a imoralidade, mostra que a omissão alimenta o vício, que é preciso ter coragem, força, fé... e vergonha. Se quisermos, nós também podemos.

Neuza Carion
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