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Colunistas - Ivone Boechat

Quem foi Pilatos

Publicado na edição 120 de Abril de 2012

Pôncio Pilatos, homem de origem plebéia, provem da família Pontii, com raízes no Sul da Itália. Pilatos pode significar homem armado com dardo-pilum; ou sem cabelos-pillus - calvo. Devia ser um oficial do exército. O cargo de procurador (governador) da Judéia, para o qual Pilatos foi nomeado, em 26 a.C , não era de dar inveja. A colônia a ser governada no Sul da Palestina, com cerca de 200 quilômetros de comprimento e 90 km de largura, era uma notória área de conflitos. Os habitantes, herdeiros dos reis  Salomão e Davi, eram conhecidos como povo rebelde. Adoravam a um único Deus e se recusavam a adorar o Imperador-Deus de Roma.

Pilatos e sua mulher Procla moravam em Cesaréia, a noroeste de Jerusalém, onde foi instalada a capital administrativa, foi ali que se construiu um reduto romano. Era uma pátria longe da pátria romana.

Pialatos comandava um batalhão de cerca de 4 mil soldados e tinha poderes absolutos sobre a vida, exceto dos cidadãos romanos. Ele já batera de frente com o povo, provocando manifestações públicas, quando mandou que se afixassem estandartes com  bustos dourados do Imperador romano. Foi desmoralizado e voltou atrás.

Mais adiante, Pilatos fez um projeto para levar água para Jerusalém, de uma distância de 37 quilômetros, porém, meteu a mão no tesouro do templo. Porém se “esqueceu” de consultar os altos sacerdotes e porque os judeus já andavam de olho nele... uma multidão de mais de 10 mil pessoas foi para as ruas de Jerusalém, gritando insultos e ameaças. Soldados de Pilatos (a paisano) mataram muitos judeus. Nesse clima de revolta, Pilatos chegou a Jerusalém para as celebrações da Páscoa e encontrou o ambiente tumultuado. Nem poderia imaginar que nesse dia estava prestes a enfrentar o maior desafio de sua vida política.

Na manhã da sexta-feira, levantou-se e o primeiro encargo foi ler o processo contra um cidadão chamado Jesus que já estava preso, desde a noite anterior e levado a julgamento no Sinédrio(Conselho Supremo dos Judeus) composto de 71 sacerdotes,  homens ilustres, especialistas em leis. Eles rasgaram as vestes, ao ouvir o depoimento do presidiário, quando declarou ser “o Cristo, o filho do Deus bendito”.

Os sacerdotes, seguidos de grande multidão, conduziram Jesus ao pretório perante Pilatos,  em busca de sanção para executar a pena de morte. O governador olhou para aquele homem amarrado, com pouco mais de trinta anos e se admirou. Dirigindo-se a Jesus perguntou” És tu o rei dos judeus ?”.

Após o interrogatório, conclusão:”Não vejo nele crime algum”. A multidão não arredava o pé dali, os sacerdotes continuaram acusando e finalmente Pilatos escuta: “Ele estava na Galiléia  ensinado a rebelião política, contrariando as leis romanas. O governador da Galiléia, Herodes Antipas, rei-títere  de Roma, nesse período da páscoa estava em Jerusalém, hospedado a poucos passos dali, no palácio velho. Então, para ele o levaram, era sua a jurisdição,  O Rei Herodes ficou alegre, ao conhecer Jesus, mesmo em tais circunstâncias, porque já ouvira falar dos seus milagres, mas diante do silêncio do preso, perdeu a calma, se irritou e para o humilhar, mandou-o de volta a Pilatos, com um manto real. E agora, o que fazer? Pilatos declarou novamente aos sacerdotes que não via culpa, dando outra opção de castigo: açoitar o prisioneiro e soltá-lo. Falou ainda bem alto que na páscoa era costume perdoar um preso. “Há um ladrão preso chamado Barrabás. A quem devo perdoar a Jesus ou a Barrabás?” E o clamor muito forte bradava Barrabás.O que faço de Jesus? E a multidão gritava “Que seja crucificado! Se soltas este homem, não és amigo de César”.

Pilatos, com medo das ameaças de ser denunciado como traidor de César, “lavou as mãos”, porque conhecia a lei das escrituras sagradas, assim cumpriu o ritual descrito em  Deuteronômio 21:6-7: “Todos os anciãos desta cidade, mais próximos do morto, lavarão as mãos sobre a novilha desnucada no vale”. E dirão: “As nossas mãos não derramaram este sangue, e os nossos olhos o não viram derramar-se”.

A história registra que Jesus foi entregue nas mãos dos soldados romanos que o amarraram a uma coluna do pátio e o açoitaram sem piedade. Escarneceram dele durante todo o tempo, o envolveram com um manto escarlate e o coroaram com uma coroa de espinhos: “Salve o Rei dos Judeus”. Sobre a cruz, Pilatos mandou que escrevessem: Jesus Nazareno, o Rei dos Judeus.

O homem que sentenciou a Cristo, político, viciado no poder, querendo promoção e mais prestígio, mandou matar a Jesus, todavia, não conseguiu mais promoções, porque não passou daquilo. Pelo contrário, seu mandato foi reduzido em 10 anos por causa de outras decisões infelizes que tomou, o que levou o povo de Samaria a fazer uma representação contra ele.

No ano 36  d.C. Pilatos foi chamado a Roma para explicar suas arbitrariedades, porém, ao chegar, soube,  com imenso alívio que Tibério acabara de morrer.

O escritor e cronista cristão, Euzébio de Cesaréia, escrevendo no século IV, narra que Pilatos, depois de outros infortúnios, foi finalmente levado ao suicídio.

 


Ivone Boechat
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