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Colunistas - Neuza Carion

DESAGRAVO

Publicado na edição 121 de Maio de 2012

Entre a efervescência do verão e a introspecção do inverno, o mês de maio é um mês brando, suave, ameno como seu clima. A ele são relacionados eventos e datas que sugerem ou inspiram emoções doces e reconfortantes. É o mês das mães, para os católicos o mês de Maria, em especial da doce Mãe de Fátima. É o mês das noivas. É o mês da abolição da escravatura que aqui, diferente do ocorrido em outros países, se resolveu com um decreto em vez de guerra.

E bem ali, logo em seu começo, está o dia dedicado a um grande injustiçado. Nossa civilização fez dele sinônimo de castigo. O sistema econômico deu-lhe o status de mercadoria - classificada, em grande parte, como de baixo valor.  Seu nome é costumeiramente associado a dificuldades, a ausência de liberdade, a sacrifício. Eu, no entanto, confesso: sou viciada nele, tenho prazer no Trabalho.

Tenho meus motivos. Para começar, discordo do entendimento de que se trabalha para “ganhar dinheiro”. O objetivo não é este. O dinheiro é só moeda, uma medida-padrão para facilitar a quantificação de valores e a troca por bens e mercadorias.

O trabalho surgiu muito antes de ser inventada a moeda e com um objetivo mais que nobre: a sobrevivência num mundo, então, totalmente hostil - entendida como trabalho a repetição rotineira das atividades de obtenção de comida, agasalho e abrigo. Foi o esforço dirigido, realizado em associação, que evitou a extinção da nossa frágil espécie.

Daí outra questão: o trabalho isolado possibilita a sobrevivência dos indivíduos, mas é a sociedade que dá segurança, conforto, avanço. A divisão de tarefas permite que muito mais seja conquistado e realizado, que muitos tenham acesso ao que seria impossível para um só conseguir. Foi assim e é assim: todos dependem de todos.  

E é assim que entendo o trabalho: a contribuição individual no esforço que tem como objetivo a sobrevivência e o desenvolvimento do grupo, cada um fazendo a sua parte, do bóia-fria ao chefe da nação. A retribuição (nem sempre Justa, é verdade...) dada a esta contribuição ao bem comum é feita em dinheiro, a moeda que facilita a troca pelos bens e produtos que garantem subsistência, conforto e progresso ao indivíduo/trabalhador e a seus dependentes.

Ainda outro argumento: na realidade as conquistas e avanços da humanidade se deram, em grande parte, por meio de trabalho não remunerado. Quem pagou a invenção da roda e a descoberta do fogo? Os antigos filósofos recebiam pagamento para pensar?  E os primeiros cientistas? Sócrates e Galileu que o digam...

E mais: não bastasse ter origem e causa nobres, foi do trabalho – e da necessidade de comunicação daí advinda - que nasceram as Artes. A música nasceu da marcação rítmica para que várias pessoas executassem um mesmo movimento ao mesmo tempo, para deslocar um grande peso, por exemplo.

Por estas razões, entre muitas outras, sinto um imenso prazer e um grande orgulho em trabalhar, procuro dar o melhor de mim, agir além da obrigação em qualquer atividade que exerça e pretendo continuar, de alguma forma, mesmo depois que não estiver mais obrigada a fazê-lo, mesmo sem vínculo formal, nem compromisso. Por isto, esta nota de desagravo.

Como diria o Pai dos Pobres: - Parabéns, trabalhadores do Brasil!

Neuza Carion
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