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Colunistas - Antônio Laért

Fragmentos de cpnversa solo VI

Publicado na edição 121 de Maio de 2012

Hoje senti um aperto no peito; uma amargura.Como sair da  engrenagem do mundo para  retirar-me a um lugar  de silêncio, onde, há tempos estou marcado estar ? As garras do mundo, os compromissos, as pendências, o black-berry, os e-mails, o celular, nada  disso deixa-me realizar  o propósito  de, por apenas alguns dias, ficar isolado na alma; estar  longe de tudo;  afundar  no buraco do silêncio à minha frente. A vida até parece estar fora de lugar. Preciso me desmobilizar de mim. Esquecer minhas  engrenagens. Olhar-me no espelho. Entregar-me a essa  experiência. Saborear essa pausa. Calar e repousar meus desejos.

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A  sineta  toca às  seis  e trinta  e é tão sonora. Os pássaros  piam e a cigarra  faz  ecoar  seu canto forte. Tudo é harmonia e  agora  em mim um silêncio já se  faz. A vida parece estar voltando pro lugar.

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Recolhemo-nos à cela às vinte e uma horas. Outra experiência de  silêncio; de  convivência  com o nada  e o tudo. Deus  está  aqui. Minha engrenagem tem agora outra rotação. A vida  parece ter voltado ao seu lugar. Estou fora do mundo para a ele  retornar bem mas forte, inteiro, consistente, depois dessa  imersão no silêncio.

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O  dia  corre  rápido e  lento. Estou agora  no giro certo e sei que é no lento e  na calma  que as coisas  ocorrem  e  acontecem. Um  começo de  saciedade  toma conta de mim. Estou cem por cento aqui. Entregue interiormente  à  essa  reflexão para  saber  mais de mim. Suprir e  preencher as  lacunas e  os  buracos de  minha formação, é o que tenho procurado fazer. Encanta saber  que  tenho ainda tanto a  descobrir  e  conhecer.

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O azul da  borboleta se  destaca  sobre a franja verde  que recobre  a  encosta. De  longe, pode-se  ver  a  harmonia desse  sobrevôo. Nada muda  ao redor. O silêncio permanece. A luz do sol aquece e ilumina, dando cor ao choque  harmonioso do azul sobre o verde.

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Ficar em silêncio é, ao mesmo tempo: prazer  e pânico;  fertilidade  e aridez; doce  e amargo; luz  e trevas; música  e ruído; harmonia e  desencontro. Enternece e excita; amedronta e abate.

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Ninguém é sublime as vinte e quatro horas do dia, nem totalmente divinizado. Vivemos nessa  precariedade entre o que somos e o que desejamos ser.

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As  horas correm. Na cela vejo a mim próprio. Aguento a mim mesmo. Tudo isso, nesse silêncio propício para conhecer-me melhor e  contemplar  aquele  tanto  que me falta.

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Estou em paz, descansado, apaziguado e consolado pelo silêncio: “meu ser  está  tranqüilo no teu regaço Senhor”.

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Levanto da cama e  tudo em torno a  mim é silêncio. Um silêncio sonoro. Ouve-se  apenas um barulho bom: o canto de  cigarras  e pássaros que compõem e  integram  essa  harmonia do silêncio. Tudo  é  restaurador.

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Caminhamos para o fim. Daqui a pouco descerei a montanha e  voltarei à vida real. O silêncio produziu seus frutos e  retornarei melhor, mais equilibrado, refeito e  preparado  para os  embates  que virão. De vez em quando é necessário retirar-se; fazer  essa  experiência. Da mesma  forma que os cegos  e poetas  vêem na escuridão; no silêncio ouve-se  sons, manifestações  e uma presença  que não está no burburinho das  coisas, no barulho da  vida. Abrir espaço para  essa  presença do nada em nós é tudo. E o que se  encontra  quando se  cala é  um Tudo  que fala mais que  a palavra  dita.

 

Antônio Laért
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