JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

Preciosa Idade

Publicado na edição 122 de Junho de 2012

Quando se  margeia meio século de  vida, muitas  questões vem à cabeça. Como já se disse, “depois da  estrada começa uma grande  avenida e no fim da  avenida existe uma chance, uma sorte, uma nova  saída”. Estou agora adentrando essa nova saída. E  aí, a experiência vai cozinhando o que estava cru, vai dando consistência ao que não tinha; revela o cheiro, o gosto  e a cor de  muitas coisas. Não, não se  perde  jamais  os  sonhos da juventude: eles  ganham outra  dimensão, significado diverso.  Bento XVI, desde o início de seu Pontificado, vem falando do relativismo, esse estado fluído em  que  nos  permitimos amoldar  nossas idéias e  reflexões, segundo as conveniências do momento. Tudo é  relativo. Nada tem valor  absoluto. A canção  Metamorfose  Ambulante de Raul Seixas, dá  bem o tom: “Prefiro ser  essa  metamorfose  ambulante, do que ter  aquela  velha opinião formada sobre tudo. Eu quero dizer  agora  o oposto do que disse  antes...”. Ah, quando se dobra a esquina dos  cinqüenta  anos e  se  divisa a  segunda metade  da vida, já não dá mais para ter essa liberdade; ser tão resiliente  assim. Nascer é muito comprido mesmo. As coisas começam a cristalizar, sedimentar. As reflexões e  dúvidas  caminham  para  certezas e assim a  experiência vai dando um novo tempero a tudo. O espelho revela que estou virando já um senhor, um bonito senhor. Não sei dizer na verdade quem revela quem, mas, nessa quadra do tempo, a vida interpela  a  assumir posições  de maior  consistência no enfrentamento de  tudo. Quero crer que isso não venha tornar chato, previsível, opaco, imutável, quem  está  nessa  condição, não. Apenas impõe uma carga de  argumentos com  densidade  e conteúdo para  render-se a ponto de vista diverso. Pesa dizer isso, mas é  incontornável. Afinal, não  dá  para  ser  por toda  a vida apenas aquele  garoto ou jovem promissor.  É  a  vida  que  nos  alcança  nessa  volta e é assim. Vamos então em frente olhando  e  vendo  que, como disse  Pessoa, tudo vale  a  pena  quando a alma  não  é pequena. E olha que tem sido grande o esforço para  alargá-la e fazê-la crescer, deixar  este padrão e  para  adiante  navegar. Mas, ‘a  partir  de amanhã, juro que  a vida  vai ser  agora’, que vou lambuzar  o coração de  mel  e ir  em paz.

 

 

Antônio Laért
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