JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

Vencendo Desafios

Publicado na edição 123 de Julho de 2012

Acordo bem cedo, às 4:30h. Não sei bem o que me reserva a prova deste domingo, cuja largada está  programada  para 7:30h. Como sei que terei que vencer muitos desafios, começo por tomar um banho frio, para despertar melhor nessa madrugada. Meu corpo quente resiste  à  água  fria  e  ganha nova disposição.  Preparo o café. Tiro algumas  coisas da  geladeira  e as  posiciono na mesa. Coloco o short, o frequencímetro, a meia, o tênis, a  camiseta, o chip e  sento à mesa  para tomar  café. Levanto, afixo o número de peito na camiseta com alfinetes. Apanho o dinheiro, o gel, o Ipod, coloco o boné e o óculos de sol e  saio de  casa para  apanhar o táxi que me  levará rumo ao local da largada. Levo comigo duas  bananas  e uma  maçã. Chego ao local antes  da  hora. Caminho, bebo água, utilizo o banheiro e me dirijo rumo à  largada. No horário anunciado pelo locutor checo o frenquencímetro, legal, mas meu Ipod não dá nenhum sinal. Insisto e verifico que  a  bateria  morreu. Pensei cá comigo: terei que fazer todo esse percurso sem a inspiração de minhas músicas preferidas e previamente selecionadas? Que golpe mortal ! Que  impacto em mim. Como não ficar afetado? Estou condicionado a correr  ouvindo música e não terei hoje essa companhia agradável, motivadora  e inspiradora no traçado da prova de  21,4k  que  me  dispus  a percorrer. Olho a meu lado: quase  todos corredores com seus  apetrechos  eletrônicos e  eu ali, prestes  a largar, apenas  na companhia de um silêncio sonoro. Tento vencer esta dificuldade, mesmo ainda não tendo passado na largada. Como não havia outra solução, tento recuperar o meu controle, a minha centralidade e o foco na prova. Coloquei os fones no ouvido e o Ipod no bolso, solenemente desligado, enganando a mim mesmo. Larguei ouvindo meus próprios passos e o arfar de minha respiração em equilíbrio, apesar  do baque.  Parti em direção à chegada.  Corri no meu passo, atento ao frequencímetro, observando e ouvindo comentários, brincadeiras e frases de efeito de outros  corredores. Meu tempo estava dentro de minha programação. O sol saiu para ver o espetáculo. A temperatura estava em 24  graus e  a umidade do ar  deliciosamente  ideal. Observei que, pela  distância  já percorrida,  iria  chegar  antes do programado. Moderei a passada, modulei o instinto. Venci o percurso em 02:09:16. Uma vez mais, consegui superar os obstáculos apresentados e cruzei a  linha  de chegada com tempo inferior ao programado e inteiro, com equilíbrio, saúde  e consciência. A alegria por mais essa  experiência  foi de contentamento. Como disse Pessoa, a única  realidade  da vida é a sensação. Correr purifica o corpo e a mente. É verdade que  o pé  esquerdo  doía  e  haviam  sinais  que  alguma unha do pé direito fora  danificada. Mas tudo bem, isso estava dentro do previsto. As pernas estavam  enrijecidas  e cansadas pelo esforço. Recebi o prêmio a que fiz jus. A medalha da prova foi colocada em meu pescoço e caminhei orgulhoso para fora da arena, pensando: tudo parece incrível. Nunca pensei em fazer  essa “loucura” e  essa Meia Maratona já  é a  nona  que completei. Outras certamente virão. Amanhã  será  outro dia, e  haverá  outra  batalha.

 

Antônio Laért
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