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Colunistas - Antônio Seixas

Um altar para São Nicolau

Publicado na edição 123 de Julho de 2012

Na obra de restauração da tricentenária igreja de São Nicolau, erguida em 1710, um detalhe causa estranhamento: o altar do padroeiro, antigamente pintado de branco, ganhou um tom acinzentado. Em que pese a alegada tonalidade ter sido encontrada sob uma das muitas camadas de tinta, a sua escolha não parece adequada.

A Igreja Matriz de Suruí, elevada a condição de freguesia pelo alvará régio de janeiro de 1755, guarda retábulos do final do século XVIII. Adotando a classificação tipológica ou estilística do arquiteto Lúcio Costa, podemos afirmar que o altar de São Nicolau se insere na quarta tipologia (estilo neoclássico). O estilo neoclássico predomina no panorama das artes europeias de 1780 a 1830 e se caracteriza por passar uma impressão de leveza.

De sua visita a freguesia de Suruí, em 1794, o Cônego Pizarro e Araújo registrou que os altares eram de “fracos ornamentos”. Essa sóbria ornamentação dos altares é um reflexo da decadência econômica vivenciada pelas irmandades do Santíssimo Sacramento e de São Nicolau, em fins do século XVIII, responsáveis pela manutenção do altar-mor da igreja.

a
professora Sandra Alvim (UFRJ), em sua tese de doutoramento sobre a arquitetura religiosa colonial no Rio de Janeiro, observa que a talha do fim do setecentos é marcada pelo uso de cores claras, como o branco e o creme, e pela redução do douramento, “o que confere leveza ao retábulo, valoriza suas partes principais e facilita sua compreensão” (1996, p. 94).

A opção pelo tom acinzentado na restauração do altar-mor de São Nicolau pode, em tese, colocar em risco o tombamento estadual do templo, ocorrido na década de 1980, em razão de sua descaracterização.

Antônio Seixas
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