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Colunistas - Sérgio Silva

Filosofia do Trabalho

Publicado na edição 123 de Julho de 2012

O termo trabalho é originário do latim tripalium, que designa instrumento de tortura. Por extensão, significa aquilo que fatiga ou provoca dor.

Na Bíblia, o trabalho foi considerado um castigo por Adão ter comido a maçã. Adão e Eva foram expulsos do Paraíso. Deus disse que “do suor do teu rosto comerás o teu pão”. Assim, mediante o trabalho, o homem modela o mundo à imagem e semelhança de Deus. Trabalho, também seria a criação do bem comum.

Homero afirma que os deuses odeiam os homens e precisamente aparece o trabalho como conseqüência desse ódio.

Os gregos afirmavam que o trabalho era o castigo dos deuses. Os nobres não trabalhavam. Mencionava Aristóteles que a escravidão de uns é necessária para que outros possam ser virtuosos. O trabalho impediria o homem de atingir a perfeição. Platão asseverava que os trabalhadores da terra e os outros operários conhecem só as coisas do corpo; se, pois, sabedoria implica conhecimento de si mesmo, nenhum destes é sábio em função da sua arte.

Os sofistas tinham entendimento diverso. Para Pródico, nada do que é bom e belo concederam os deuses ao homem sem esforço e sem estudo; se queres que a terra te produza frutos abundantes, deves cultiva-la.

O trabalho é da idade do homem e é uma atividade pela qual o homem transforma o universo.

Será que trabalhar é uma condição essencial ao homem? Ou o homem só trabalha por necessidade e pela ameaça de se poder extinguir se não trabalhar?

Para Kant, o homem é o único animal voltado ao trabalho. É necessária muita preparação para conseguir desfrutar do que é necessário à sua conservação. Mesmo que todas as condições existissem para que não houvesse necessidade do homem trabalhar, este precisa de ocupações, ainda que lhe sejam penosas. A ociosidade pode ser ainda um maior tormento para os homens.

Michel Foucault tem outra perspectiva: em todos os momentos da história, a humanidade só trabalha perante a ameaça de morte, qualquer população que não encontre novos recursos está voltada à extinção e, inversamente, à medida que os homens se multiplicam, empreendem trabalhos mais numerosos, mais difíceis e menos fecundos. O trabalho deve crescer de intensidade quanto maior for a ameaça de morte e por todos os meios terá de se tornar mais rentável, quanto de menos acesso às subsistências existirem.

É como uma atividade penosa a que o homem não pode fugir que a concessão de trabalho herdou das suas origens grega e judaico-cristã.

Só o êxito do capitalismo burguês, no século XIX, coloca o trabalho como um valor supremo de uma sociedade voltada para o lucro e para a prosperidade e crescimento.

O trabalho constitui-se mais tarde como uma questão social com a produção industrial, o trabalho torna-se um fim em si mesmo e o trabalhador é um mero instrumento de produção, necessário ao funcionamento de uma fábrica, mas do qual existe a outra parte, o capital, necessário para a fábrica se estabelecer e que não depende do trabalhador.

Nos nossos tempos, com novo sistema de valores, o trabalho é uma das dimensões em que o homem se realiza juntamente com a família, os tempos livres, os amigos, a cultura etc.

O trabalho é um processo universal, está presente em todos os homens, em todas as gerações, mas também tem uma dimensão pessoal, pois é através do sujeito que se efetua e esse sujeito, através do trabalho, tem uma forma de realização pessoal. Não se pode esquecer igualmente a sua vertente social, já que integra o homem num grupo profissional, onde estabelece relações interpessoais.

Na época de desenvolvimento industrial, existiram conflitos de classes: mundo do trabalho versus capitalismo.

Para Marx, o trabalho é o prolongamento da atividade natural do homem, mas mais tarde conclui que a força de trabalho é uma mercadoria e que, para viver, o proletário vende o capital.

Segundo Marx, o trabalho denuncia uma exploração econômica e uma situação em que o homem não se revê no seu trabalho mecanizado e repetitivo, ou seja, não obtém a realização profissional que deveria obter, referindo-se a uma essência do homem que seria suposto o trabalho completar.

O marxista Paul Lafarge exprimiu-se desta forma: "A nossa época é o século do trabalho. É, com efeito, o século do sofrimento, da miséria e da corrupção".

O trabalho, porém não pode ser considerado como mera mercadoria.

A valorização do trabalho é pressuposta da existência digna. Com o trabalho se atinge a essência. 

Sérgio Silva
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