JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Dulcimar Menezes

Encontros e despedidas

Publicado na edição 126 de Outubro de 2012

Eu estava chegando de carro na casa do meu avô para o velório do meu pai. Casa era a mesma da minha infância, mas parecia muito maior. Quando eu ainda estacionava o meu carro, pessoas que eu não reconhecia, como se me esperassem, começam a gritar: Ela chegou, ela chegou! Eu entro em casa e encontro o meu pai sentado em um sofá conversando com algumas pessoas que, ao me avistarem, levantam-se e saem por uma porta lateral. Meu pai pede que eu me aproxime. Aproximo-me. Sento-me ao seu lado. Ele me diz:
- Estava somente esperando por você.

Eu lhe digo:
-Estou aqui para que o senhor me esclareça o que está acontecendo.

Ao que ele me diz:
- Você só não sabe ainda o que está acontecendo porque você não quer ver.

Respondo: 
-Preciso que você me diga.

Então, vem a resposta:
- Eu não tenho mais corpo para viver esta vida. Eu quero ir embora, mas gostaria de deixa-los bem.

Sentindo um nó na garganta, mas com o coração tranqüilo, digo para ele:
- Se for assim, pode ir, pois tudo ficará bem.

Ele, então, se levanta, olha nos meus olhos e sai pela porta lateral pela qual os outros saíram anteriormente. Fico ali sentada, sozinha, durante um curto espaço de tempo. 

Logo em seguida desperto muito intrigada. Estranhamente aquele sonho havia sido muito real.

Era a manhã do dia 31 de outubro de 1996. Somos logo pela manhã surpreendidos pela trágica notícia de um acidente de avião em São Paulo. Muitos mortos. Muito sofrimento. Penso: Este dia das bruxas começou mal. Vamos ver como ele vai terminar...

Meu pai, que era diabético, havia sido internado naquela noite por causa de complicações em seu quadro clínico. Estava em coma na UTI do hospital naval Marcílio Dias, zona oeste do Rio de Janeiro.  À tarde recebo a notícia de seu falecimento. 

Desde há muito os sonhos são alvo das atenções dos cientistas, filósofos, artistas e místicos. Freud afirmou que os sonhos traziam do interior da mente humana o desconhecido de todos nós a respeito de nós mesmos. Jung acreditava que os sonhos traduziam também memórias arquetípicas que compunham o inconsciente coletivo.  Os sonhos bíblicos traduziam-se como revelações. As tradições ancestrais da América Latina entendem os sonhos como portais para o mundo dos espíritos e da plena sabedoria. Dizem que não devemos dar muita importância ao que aprendemos quando estamos acordados, pois o que verdadeiramente importa é o que aprendemos quando estamos dormindo. Segundo as suas crenças a vida real é um sonho e quando sonhamos entramos em contato com a verdadeira realidade.

O funcionamento do cérebro humano indica uma escala de variações de freqüência na emissão de suas ondas eletromagnéticas, que podem ser verificadas pelo traçado encefalográfico. As mudanças nas freqüências de ondas e do potencial bioelétrico das células neuronais provocam alterações no estado de consciência do indivíduo. Pierre Weil desenvolveu uma fórmula simples, porém de profundo conteúdo e sabedoria onde ele indica a relação do estado de consciência com a vivência dos diferentes níveis de realidade e afirma que a vivência de realidade (VR) é função (f) do estado de consciência (Ec):

VR = f (Ec)

Portanto, não me resta nenhuma dúvida que o sonho que relatei foi um verdadeiro encontro de despedida que tive com o meu pai, pouco antes dele partir. Já se passaram 16 anos desde aquele sonho que foi sucedido por muitos outros encontros semelhantes. E com certeza a morte física fez muito bem ao meu pai!

Dulcimar Menezes
Conheça o perfil pessoal de nosso colunista ou outros artigos publicados por ele
Clique Aqui