JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

A força que nunca seca

Publicado na edição 126 de Outubro de 2012


"Ter esperança é arriscar-se à frustração. Tome, portanto,
a resolução de correr esse risco.
Não seja um dos que, para não correr o risco de fracassar,
nunca tentam coisa alguma".
 
Thomas Merton (1915-1968)


Nesses  tempos  em  que  tudo  voa  e  corre  acelerado, em que  há  um alarme  de  todos  com essa  aceleração  e  uma  aflição que  consome o tempo escasso que  temos, consola  saber  que  existem homens  e mulheres  que se  isolam dessa  agitação  para  viver  uma  vida  à parte, em  outro tempo, com outro relógio, noutra rotação. Uma das mais significativas vozes proféticas  do século XX  que se  faz  ouvir até  nossos  dias, em favor da  paz, da  unidade dos  cristãos, da  necessidade da  oração, pertenceu a um monge  trapista mergulhado  durante 27 anos no silêncio - Thomas Merton(1915-1968).

Foi através da poesia de Willian Blake que encontrou Deus. Ingressou na  ordem Cisterciense, aos  26  anos de  idade, onde passou a chamar-se irmão Luis. Recluso nas matas do cento dos Estados Unidos, no mosteiro de Nossa Senhora de Getsêmani, em Kentucky, observava a rotina normal do mosteiro - uma comunidade de subsistência agropecuária -, ao  mesmo tempo em que mantinha-se em estreito contato com o mundo moderno através  de  leituras e correspondências e,  sobretudo,  mediante  encontros  pessoais  com  escritores, intelectuais  e líderes  religiosos. Realista, falando a linguagem de hoje, deixou-nos vasta  obra, da qual  quase  quarenta títulos  foram  publicados  no Brasil. Entre  seus  livros  mais  conhecidos  figuram A Montanha dos Sete Patamares e Novas Sementes de  Contemplação.

Trabalhou para mudar a sociedade e chegar  mais  perto de  Deus. Foi  assim que  esse  homem que  amava  a  vida  com a  paixão de  um poeta  romântico  permaneceu  até  nossos  dias,  decorridos quarenta   e quatro anos  desde  que  findou  aqui o seu desenho. É muito grande ainda  o interesse  pelos  livros,  cartas, diários e  escritos  seus, que  ainda  são  publicados  com grande  procura. Ensaios e livros continuam sendo escritos, analisando e aprofundando  as  diversas  facetas do trabalho deste  grande  pensador e da  sua  complexa  personalidade. Sua marca sobre a  terra  resplandece  nítida  e real e o brilho não é  pequeno. A Sociedade  dos  Amigos Fraternos  de Thomas  Merton, denominação oficial do  Thomas  Merton Center no Brasil, tem  a  missão de  tornar  mais  conhecida a  obra  e  as  múltiplas facetas  de Merton.

Fecho com um aperitivo, estas  mal  traçadas linhas,  valendo-me  de fragmento extraído de um dos textos de Merton, sobre  a ilusão do barulho: “Os que amam o ruído que fazem, são impacientes com o resto. Desafiam constantemente o silêncio das florestas, das montanhas e do mar. Passeiam com suas máquinas, através da floresta silenciosa, em todas as direções, cheios de medo de que um mundo calmo os acuse de vazios. A pressa da sua velocidade, sob pretexto de um fim, simula ignorar a tranqüilidade da natureza. O avião ruidoso, por sua trajetória, por seu estrondo, por sua força aparente, parece por um momento negar a realidade das nuvens e do céu. Vai-se o avião, e fica o silêncio do céu. Afasta-se ele, e a tranqüilidade das nuvens permanece.

O silêncio do mundo é que é real. O nosso barulho, os nossos negócios, os nossos planos e todas as nossas fátuas explicações sobre o nosso barulho, negócios e planos, tudo isso é ilusão”. Realmente, não se deve tirar jamais a alegria de quem  conheceu  a  aurora.
  

 

Antônio Laért
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