JORNAL MILÊNIO VIP - Quem aí tem medo de intimidade!?!

Colunistas - Débora Damaceno

Quem aí tem medo de intimidade!?!

Publicado na edição 126 de Outubro de 2012

É muito comum ouvirmos de homens e mulheres hoje em dia que os relacionamentos perderam muito do encanto que tinham antigamente.  Ganhamos liberdade de expressão, liberdade no vestir, ganhamos liberdade sexual, mas aparentemente perdemos em qualidade. Jovens beijam vinte, trinta pessoas numa única noite, mas voltam para casa solitários. Tem gente que divide a cama com alguém há anos e é incapaz de falar a essa pessoa de seus sentimentos.

Estamos vivendo em uma época em que tiramos a roupa, mas permanecemos com a alma encoberta.

Isso, porque hodiernamente, temos sido incapazes de estabelecer intimidade. Geralmente relacionada com algum aspecto da sexualidade, a palavra intimidade se refere a nosso interior, tornar algo intimo é trazer para dentro. Não tem a ver com o tirar a roupa somente, tem a ver com abrir o peito, não tem a ver com saber tudo de alguém, mas sim com saber o que é importante para alguém.

Sabemos que somos íntimos de uma pessoa quando conseguimos permanecer calados diante dela sem nos sentirmos constrangidos, quando podemos falar de nossas emoções ou de nossa sexualidade sem pedir licença ou dar desculpas. Quando somos capazes de nos comunicar completamente sem palavras.

Tenho observado no consultório que a maioria das dificuldades sexuais não tem sua origem, como seria de se esperar, em eventos traumáticos, mas sim numa falta de percepção de si mesmo e do parceiro que leva a pessoa se precipitar para o contato sexual. Ora, precipitar-se é lançar-se num precipício: é um ato de desespero, não de amor. Hoje em dia as pessoas tem liberdade para fazer sexo, mas tem medo de sentir no sexo. Nós temos medo da intimidade.

O desvincular do contato sexual de um contexto de compromisso fez com que muitos acreditassem que ele pode ser desvinculado do relacionamento. E sem relacionamento não é possível estabelecer intimidade e sem intimidade o contato sexual se resume a um esfregar de genitais frios (sem emoção, sem sangue, sem excitação) que ao terminar deixa os parceiros com uma profunda sensação de vazio, de nojo, seguidos de uma vontade louca de sair correndo do lugar, da memória do contato, de si mesmos...

Um relacionamento sexual realmente prazeroso é profundo como o amor cantado pelos poetas, como o êxtase descrito pelos religiosos e está ao alcance de qualquer um de nós desde que nos demos ao trabalho de construir um relacionamento intimo com alguém. E a palavra é exatamente essa: construção. Leva tempo, vai demandar esforço, entrega, coragem; porém ao final seremos capazes de junto com as roupas, tirar também os pudores, os preconceitos, os medos, despir-nos de fato, para nus, nos entregarmos ao amor. 

Nossa geração hitech, fastfood, touchscreen quer tudo muito virtual: botões que nos dêem respostas imediatas, daí a ânsia por técnicas sexuais, pelos pontos G, Y ou X, como quem espera de uma pessoa que ela reaja como uma máquina. Daí a nossa crescente frustração.

A expressão fazer amor sugere que no ato sexual corpo e alma se unem para sentir. Não é só uma questão de áreas erógenas, é uma pessoa inteira participando de um ato, com corpo, com sentimento, com memória, com história, com imaginação, como uma pessoa e não como uma parte. E sem pressa.

Convido-os então a um singelo exercício: Da próxima vez que estiverem enamorados de alguém, antes de falar de seus desejos, de sua admiração, fale de como foi seu dia, do que você sentiu, conte uma memória antiga; antes de tirar a roupa, fique durante um minuto olhando nos olhos da pessoa. Talvez você descubra o mais fascinante de todos os prazeres, o prazer de ser íntimo de alguém.

Débora Damaceno
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