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Colunistas - Nadja Natan

Política, político, politicagem

Publicado na edição 126 de Outubro de 2012

Esse outubro respiramos ares políticos em várias partes do mundo: Na Venezuela, presidente Hugo Chávez acaba de ser re-eleito. Nos Estados Unidos, presidente Barack Obama tenta ser re-eleito usando estratégias políticas universalmente conhecidas e no Brazil, há uma tentativa de se conceber uma nova era na política brasileira, sem politicagem. Aqui na Inglaterra, apesar de não haver eleições esse ano, os políticos aqui ‘posam’ diariamente para os jornais durante as conferências dos três principais partidos: Trabalhista, Conservador e Liberal. As táticas que usam são costumeiras: desbancar o adversário ao vangloriar seus ideais políticos e suas estratégias socioeconômicas, prometendo ser os guardiões das soluções nacionais e internacionais. Os jornais dos nossos vizinhos europeus vêm reportando diariamente como as novas políticas de austeridade assustam o cidadão comum da Espanha e da Grécia, uma consequência de política irresponsável e desastrosa.

Entre esse burburinho todo, como gosto de línguas e gosto de estudar a equivalência entre a língua inglesa e portuguesa, pensei que seria interessante procurar saber como essas três palavras ‘política’, ‘político’ e ‘politicagem’ são, de fato, definidas pelos especialistas em lexicografia. Estariam eles só interessados na etimologia das palavras ou também acompanhavam as mudanças atuais? Como vivo aqui na Inglaterra e escrevo em português tomei a liberdade de buscar os verbetes na Internet em dicionários das duas línguas. Queria constatar se suas definições era as mesmas, similares ou diferentes, já que são culturas com histórias quase que opostas – uma é a colonizadora e a outra a colonizada; uma é primeiro mundo e a outra ‘segundo mundo’. Uma está na Europa e a outra na América do Sul, e por aí vai.

A etimologia da palavra ‘política’ é ‘ciência dos negócios do Estado’. Sob uma perspectiva socio-acadêmica ‘política’ é a arte ou ciência de governar, organizar, dirigir e administrar o Estado. É a arte de guiar e influenciar o modo de organizar um governo de acordo com os ideais dos partidos políticos. Sob o prisma da competição, ‘política’ significa debate, conflito entre indivíduos ou partidos que esperam alcançar o poder através de votos. No que diz respeito à ação política, a palavra denota a habilidade de negociar, de harmonizar interesses diferentes, de conduzir, influenciar o governo e a opinião pública e conquistar o eleitorado. Em forma mais genérica, o termo ‘política’ se concentra na democracia e no relacionamento entre a política e as pessoas. Mas para muitos de nós, especialmente em tempos de eleições e escândalos, ‘política’ seria simplesmente um espaço de prestação de serviço engajado à comunidade em favor do bem comum, onde mesmo que políticos com ideologias partidárias pratiquem uma abordagem de política diferente, as metas para o bem da comunidade seriam as mesmas.

A palavra ‘político’ como um substantivo define os políticos como aqueles que pretendem exercer, que exercem ou exerceram um cargo eleitoral. Uma vez eleitos eles se ocupam da política. Idealmente, seriam profissionais especialistas da área política eleitos para representar as comunidades. Como um adjetivo o termo ‘político’ é sinônimo de diplomata, esperto ou alguém que age de forma manipuladora, desonesta para usufruir do poder e avanços financeiros. Mas para muitos de nós seria aquele humano escolhido pela comunidade capaz de governar, de trazer melhorias, de trazer segurança, de avançar ao longo da tecnologia, de criar oportunidades educacionais para o progresso e prosperidade da pessoa comum, de trazer igualdade no setor da saúde, de ser um bom membro da comunidade internacional.

E por último vem o termo ‘politicagem’. Em inglês, ‘play politics‘ ou fazer politicagem é definido como ‘agir para ganho político ou ganho pessoal em vez do princípio’. Em português ‘politicagem’ é definido como a política praticada para atender interesses pessoais ou mesquinhos. É uma troca de favores, ou práticas de suborno usadas para garantir ganhos ilícitos. E é aqui que muitos políticos com suas ‘políticas pessoais’ caem na armadilha do uso do poder como um ato pessoal e não um ato de representação – aqui Tony Blair me vem a mente ao declarar guerra contra o Iraque. Aqui é onde ideologia, esperança e confiança em alguém que escolhemos para nos representar cessa. Aqui é onde repousa a corrupção.

As definições das três palavras parecem estar atualizados. Será que nós estamos atualizados? Deixei de fora o significado de palavras tipo ‘eleitor’, ‘cidadão’, ‘responsabilidade’, as outras partes da equação política democrática. Muitos de nós sabemos o que é política, quem são nossos políticos e como eles praticam a politicagem. Então serão nossas expectativas irreais? Não conhecemos a história da política? Não temos noticiários, blogs, vídeos expressando ideias conservadoras, liberais, socialistas, ecológicas, espirituais ao nosso alcance? Não temos redes sociais onde somos livres para opinar nossas ideias e princípios? Talvez tenhamos que aprender a procurar soluções diferentes das que estamos acostumados. “O sistema em operação parece ter entrado num beco sem saída, e se um sistema não funciona melhor mesmo é criar um novo sistema."

Nadja Natan
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