JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Antônio Laért

O LAVRADOR DE PALAVRAS

Publicado na edição 88 de Janeiro de 2009

“Fere de leve a frase... E esquece... Nada convém que se repita... Só em linguagem amorosa agrada a mesma coisa cem mil vezes dita.” Mário Quintana (1904-1994)

- “Ser o que somos, e vir a ser o que somos capazes de ser; é o único objetivo da vida.“
Spinoza (1632-1677)

- “A vida necessita de pausas.“
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Agora que minha mesa de trabalho está arrumada, retomo então o texto que ontem deixei inacabado. Releio e verifico que o texto tinha caminhado sozinho, além do ponto que parei. Alguém anda escrevendo em minhas anotações, concluí. Será possível? Aquele que se põe a escrever convive com muitos seres estranhos que o assombram – fantasmas para Ernesto Sábato – anjos para uns, vozes e músicas sopradas aos ouvidos, para outros. Eis aí uma justificativa consoladora. Por vezes tem-se mesmo a sensação de que foi um outro que escreveu. É muito comum não nos reconhecermos nos textos produzidos. Eu é que escrevi isso?

Não é possível. A indagação se coloca com um misto de sensação de glorioso clímax e ao mesmo tempo perplexidade. O outro que habita aquele que escreve ainda é ele mesmo. É assim que se dá o ofício da escrita. Muitas vezes quando você permite fluir livremente as idéias no papel e vai dormir orgulhoso, no dia seguinte, ao retomar o trabalho e reler o texto com outra cabeça, morre de vergonha. A luz do dia não pode revelar isso. Aquele que escreve convive com essas sensações ambíguas. Já foi dito que palavras são cápsulas de pouca resistência com que encobrimos a ignorância. Decorre daí o cuidado que devemos ter com as palavras. Aquele que propõe-se a lavrar palavras deve dispensar a elas o mesmo tratamento reservado à pessoa amada. A palavra também só dá a revelar seus caprichos a quem cumpre o ritual próprio do enamoramento. E a vida toda, muitas vezes, não basta para trilhá-lo. A palavra não traduz cheiro, nem perfume, mas o escritor, qual tecelão, ao tecer seu texto, caminha inebriado por um cheiro que o atordoa e que ele deseja compartilhar com outros para que também sintam o aroma.
Escrever é utilizar-se dos restos que insistem na memória como experiência. É uma benigna chaga para a qual não se procura lenitivo na ânsia de torná-la crônica e incurável. Escrever é procurar atribuir sentido às coisas e insistir na existência, transcendendo a finitude de nossa biografia.

Antônio Laért
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