JORNAL MILÊNIO VIP - Fantasias e mentiras

Colunistas - Débora Damaceno

Fantasias e mentiras

Publicado na edição 127 de Novembro de 2012

Quantos sonhos você abandonou durante a vida? Não falo daqueles sonhos dos quais se desfez por perder o interesse em sua realização, mas daqueles que se você parar para perceber, você ainda sonha...  Quantos?

A vida cotidiana, nem sempre calma, em que a necessidade de manter as contas pagas, o trabalho em dia, a saúde equilibrada, não nos deixa muito tempo para perceber nossos sentimentos. E nesse movimento desenfreado em busca de sobreviver, deixamos de lado aquilo que, antes de termos essas ocupações, chamávamos de felicidade, de prazer.

Mas deixamos de lado apenas aparentemente, apenas na superfície de nossa consciência nós fingimos não desejar aquilo que profundamente desejamos porque nossa mente tem um mecanismo que consegue nos manter sempre em contato com nossos desejos mais profundos, nós chamamos esse mecanismo de fantasia.

Através da fantasia conseguimos “fazer mentalmente” algo que desejamos fazer, mas sem correr os riscos, gastar o dinheiro ou mesmo enfrentar os desafios de fazer de fato esse algo. Fantasiar é uma de nossas formas de conseguir lidar com as dificuldades da vida cotidiana sem deixar completamente de lado o nosso prazer. Trata-se então, nesse sentido, de um mecanismo mental saudável, que desenvolve a criatividade e a capacidade de realização, uma vez que uma fantasia pode sim se tornar um plano e o plano, um desejo realizado.

Muitas pessoas, porém, fazem da fantasia um modo de vida e isso pode se tornar um problema. A fantasia é um mecanismo de compensação: já que não posso fazer de fato, eu faço mentalmente e assim consigo me dar um mínimo de prazer. Já que eu não posso estar com você agora, eu fantasio que você está ao meu lado e assim consigo ter um pouco da alegria de sua companhia. Deve ser utilizada como um recurso temporário, como uma ponte entre nossos desejos e nossas ações.

Quando desistimos de tentar realizar nossos sonhos, quando deixamos de dar corpo aos nossos desejos, as fantasias se tornam mentiras. Mentir nada mais é do que traduzir como verdade factual algo que só existiu em nossa mente, ou seja, o que era, inicialmente, uma fantasia.  Nesse sentido, fantasiar se torna uma forma de não encarar e tão pouco resolver um problema.

Se uma pessoa no trabalho fantasia que está em férias, talvez esse trabalho não esteja oferecendo o que a pessoa pensa que merece como recompensa de sua dedicação, talvez essa pessoa esteja trabalhando demais. Se uma pessoa se fantasia com outra aparência, com outra cultura, com outra história, pode estar nos falando de antigas e profundas dores emocionais que a fazem acreditar que o que ela é não tem valor, que ela não merece ser amada somente por ser quem é. Se uma pessoa precisa, numa relação sexual, fantasiar que está com outra pessoa, talvez seja o momento de se perguntar o porquê de permanecer com esse parceiro.

Mentir, no final das contas, é a uma ação de impotentes.  Optar pela mentira como uma forma de lidar com o cotidiano nada mais é do que se declarar incapaz de mudar a própria realidade e assim torná-la ao menos próxima de suas fantasias.

Saudável, corajosa, poderosa é aquela pessoa que usa das fantasias para sonhar com algo, enquanto ela trabalha para criar condições de viver essa situação em seu cotidiano.

Muito do que existe a nossa volta existiu primeiro no pensamento de alguém. Alguém que não se contentou apenas em pensar, mas que trabalhou para realizar!

Não faça de suas fantasias uma mentira, uma fuga da realidade, mas deixem-nas ser uma ponte entre você e o seu prazer.

 

 

Débora Damaceno
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