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Colunistas - Nadja Natan

Serendipidade

Publicado na edição 127 de Novembro de 2012

Existe uma palavra em inglês, ‘serendipity’, que sempre que a leio ela me faz refletir. Ela me fascina. Gosto da palavra que não soa inglês. Uma vez, passeando com meu marido em uma cidade na Inglaterra vi uma loja chamada Serendipity. E começamos uma longa conversa do que era ou não era ‘serendipismo’. Eu contava para ele uma história e perguntava, “Isto é serendipidade?”, e entrávamos nos cantos do meu relato para determinar se era ou não. Eu gosto tanto da palavra que resolvi pesquisar mais a fundo para ver se esse fascínio tinha uma razão de ser.

Sempre gostei de contos de fadas. Meu pai, David d’Almeida, comprava livros e discos de histórias que eu lia, relia, ouvia e re-ouvia. Para minha alegria, descobri que o termo ‘serendipidade’ foi usado pela primeira vez em 1754, por um inglês chamado Horace Walpole, após ler um conto de fadas chamado, “Os Três Príncipes de Serendip”. Ele usou a palavra pela primeira vez ao escrever uma carta para o rei de Florença. Eu nunca tinha ouvido falar desse conto com esse título, mas através da Internet descobri que essa história faz parte dos contos das mil e uma noites, que li, reli e sonhei. Quando pequena, eu sonhava que um dia iria visitar os lugares distantes onde estas histórias eram passadas.

Na história “Os Três Príncipes de Serendip” os heróis viajam e enquanto isso descobrem – por acidente ou acaso, como por sagacidade e poder de observação – coisas que não estavam buscando. Essa sagacidade acidental dos três príncipes é o principal aspecto que caracteriza serendipismo. Serendip era o antigo Ceilão, a atual Sri Lanka. Mas descobri mais. Parece que a história tem origem persa. A palavra vem do árabe ‘sarandib’, que por sua vez vem do Tamil, a língua nativa do estado de Tamil Nadu que por sua vez vem do sânscrito ‘suvarnadweepa’. E, este é o lugar onde resido metade do ano. E aqui estou, escrevendo para um jornal de Magé, a terra do meu pai, sentada na minha casa em Tamil Nadu, no sul da Índia, não muito longe de Serendip ou Sri Lanka.

Serendipidade ou ‘feliz acaso’ se refere às descobertas ou encontros afortunados feitos aparentemente por acaso, que muitas vezes nos levam a transformações radicais em nossas vidas. O termo é usado repetidas vezes em meios científicos e acadêmicos. Muitas invenções foram o resultado de tais momentos. A penicilina, o microondas, o velcro, os sucrilhos e por aí vai. O conceito de serendipidade parece ser aplicado em muitos setores da vida humana.

‘Serendipity’ foi também o nome de um filme (Escrito nas Estrelas) em que os caminhos de dois estranhos no meio da multidão de Nova York colidem às vésperas de um feriado. Existe uma atração mútua e incontrolável. E assim a história se desenrola, baseada num momento singular de um esbarro.

Serendipidade é considerado como uma forma especial de criatividade que alia perseverança, inteligência e senso de observação. Na biografia do famoso Steve Jobs, o criador do Apple Mac, encontramos algo dito por ele: “A criatividade acontece durante reuniões espontâneas a partir de argumentos aleatórios. Você se esbarra em alguém, você pergunta o que eles estão fazendo, aí você se deslumbra e bem logo todos estão ‘cozinhando’ todos os tipos de ideias. Então ele criou um ambiente no edifício da Pixar, projetado para promover encontros e colaborações não planejadas. Ele diz, “Se o lugar do trabalho não encoraja isso então perdemos muito das ideias inovativas e a magia que acontece com serendipidade.”

Agora pergunto, por que algumas pessoas têm a sorte de ter a experiência de serendipidade e outras não? Tem vezes que quando pessoas se referem a outras como sortudas, ou que para elas a vida é fácil porque as coisas dão certo, fico um tanto perplexa. A perplexidade vem pelo fato de as pessoas acharem que as pessoas com sorte são simplesmente sortudas, que elas não precisam fazer esforço nenhum para que suas vidas sejam cheias de sucessos e felicidade.

Ao ler um artigo num jornal britânico sobre a sorte, me deparei com o trabalho do psicólogo Richard Wiseman. Ele escreveu o livro chamado "O Fator Sorte", publicado em 2003, no qual ele examina exatamente isso: Por que algumas pessoas são consistentemente sortudas, vivem uma vida charmosa, cheias de encontros do acaso, enquanto que outras sofrem momentos desastrosos um atrás do outro? Uma das suas conclusões é que sorte não é mágica, nem também o resultado de uma chance aleatória. Ele descobriu que não nascemos com sorte ou sem sorte.  Que sem entenderem o porquê, as pessoas criam sua boa sorte e até se transformam através dos seus pensamento, atitude e comportamento. Baseado nisso ele identifica quatro princípios básicos: 1) Essas pessoas têm a habilidade de criar e notar chances de oportunidades; 2) elas tomam decisões ouvindo a sua intuição; 3) elas criam profecias auto-realizáveis e 4) as pessoas adotam uma atitude resiliente que transforma má sorte em boa.

Então imagina que uma pessoa começa a sonhar – sonhando de olhos abertos – com algo que parece impossível. Como viajar, ir a lugares desconhecidos, encontrar pessoas diferentes. E a mente criativa e sonhadora parece alimentar a mente racional com sonhos. Suponha que isto fique imprimido dentro de nós. E um dia a gente encontra alguém que viajou e faz-se perguntas sobre os lugares, as cores, os cheiros. Vamos supor que essa informação fique ‘arquivada’ junto com aquele sonho. Daí pode surgir um interesse persistente em conversar com pessoas que viajam. Os filmes se tornam um exemplo do tal sonho: aventuras, tristezas, desgraças, diversão, amor, graça. Vamos supor que segmentos desta fantasia fique ali, bem dentro de você. A vida passa, temos família, responsabilidades, compromissos, medos, gostamos do conforto do que conhecemos. E um dia acontece que alguém ou algo nos faz ver que viajar é possível, oportunidades existem. Nossos avós não vieram de terras distantes…? E, de repente, coisas começam a acontecer, elementos dos nossos sonhos se tornam nossa experiência, tomamos decisões que podem alterar nosso rumo, é como se estivéssemos lendo o nosso próprio conto de fadas.

Parece que o verdadeiro segredo para experenciarmos felicidade é ir ao longo das oportunidades que a vida nos oferece, estarmos abertos ao ‘serendipismo’. Viver a arte de reconhecer e aproveitar as descobertas acidentais. Reconhecer, receber, viver e agradecer. E parece que é assim. Você já teve uma experiência de serendipidade? 

Nadja Natan
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