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Colunistas - Débora Damaceno

Você tem um pendrive?

Publicado na edição 128 de Dezembro de 2012

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que me perguntaram se eu tinha um pendrive. Era quinta-feira à tarde, e ela durante uma conversa coloquial de repente: “-Você tem um pendrive?” Perguntou-me assim de chofre, mas naturalmente, com a doçura das perguntas sociais, certamente esperava ouvir de volta algo como: “-Claro, aqui está ele!” Ou: “-Tenho desde que nasci, mas já me acostumei.” Mas eu só consegui dizer que não sabia, mas iria verificar; tratando de desviar logo o assunto para algum tema mais simples e menos doloroso para mim, como a psicopatologia psicanalítica ou a desinência dos verbos da língua francesa.

Teria eu um pendrive? Como sabê-lo!?! A Psicanálise prega que a doença mental se manifesta através de gestos e sensações tão evidentes, tão flagrantes para o seu portador que ele não suporta tê-los na consciência. Porém, o não estar consciente não o exime em nada da doença e de todos os seus sintomas e conseqüências.

Assim sendo, eu que me julgo tão normal, convencional até, comum ao comum, poderia, desde sempre ter um pendrive. Evidente, manifesto. Para os que me vêem, parte inseparável de mim. Para mim, completamente desconhecido. Um pendrive. Meus parentes ao reconhecê-lo poderiam ter visto nele alguma manifestação genética, resquício indesejado da herança de algum tio-avô muito distante e meus amigos, embora espantados com tal evento a princípio, logo deveriam ter se acostumado, afinal, apesar disso, eu fui sempre tão inteligente e agradável...

Mas ele estava lá, e através de uma pergunta quase social, ela o havia denunciado para mim.

Convencida absolutamente de que era portadora de um pendrive, angustiada por não saber qual era a sua forma, em que gestos meu ele se manifestava, por imaginar quanto amor eu havia deixado de viver por ter meus sentidos obliterados por ele, eu telefonei a um meu grande amigo.

Tenho nesta vida a ventura de ter alguns grandes amigos. Poucos e lindos como o amor, eles me norteiam quando estou perdida na cidade ou em mim mesma. Porque são grandes pessoas conseguem me ver com clareza; porque me amam são capazes de me falar com sinceridade.

“_Rê, eu tenho um pendrive?” Ele riu. Eu não sabia se era aquele riso nervoso de quem não mais poderá fugir à verdade ou se ele realmente achara graça na minha ignorância. E esperei, com resignação, ouvir dele a descrição daquilo que eu tinha certeza, era o elo perdido em mim.

Os tratamentos “psi” (psicológicos, psiquiátricos, Psicanalíticos) de modo geral ainda carregam o estigma da doença mental, então a maioria das pessoas somente se permite recorrer a eles quando identifica algum aspecto de si que foge completamente ao seu controle e a sua vontade, cujas ações não se harmonizam com a auto-imagem ou com o ideal que fazem de si.

Assim sendo, é esperado que alguém com depressão ou síndrome do pânico, com alguma mania ou vício, procure um tratamento, pois tais manifestações são reconhecidas pela própria pessoa como sendo algo diferente dela, nas quais ela não se reconhece e, portanto, das quais quer ver-se distante. A tais manifestações damos o nome de doença.

Porém, para além da doença existe uma manifestação que tecnicamente chamamos de traço de caráter.

São idiossincrasias que se confundem com nossa própria individualidade: “Eu gosto de ser assim.” “Assim é que é o certo.” “Penso\ajo de tal maneira porque sou honesto\ religioso\limpo...” Características, enfim, que reconhecemos como sendo parte de nossa personalidade.

Ao contrário do que pensa a maioria, entretanto, a personalidade e suas características também é uma resposta ao ambiente social em que crescemos e, portanto, é formada a partir da satisfação ou frustração de nossas necessidades emocionais.  Sendo historicamente construída, isso que chamamos de personalidade traz em si uma série de concepções que podem não mais ser verdadeiras hodiernamente.

Se eu penso, por exemplo, que homens não prestam, que toda pessoa bem sucedida conseguiu sê-lo por ser desonesta, que somente mulheres irresponsáveis sentem prazer; essas concepções mentais, que no momento histórico-social em que se formaram eram, certamente, necessárias e verdadeiras (embora eu o duvide), atualmente não fazem sentido algum, mas podem continuar sendo verdadeiras para mim e vêm acompanhadas de ações que, sem que eu perceba, me afastam da felicidade e do bem-estar com os quais eu sonho: Eu posso, inconscientemente, me sabotar durante uma entrevista de emprego por acreditar que nele serei mais bem-sucedida do convém a uma pessoa honesta ou afastar de mim, sem querer, um homem amável por sentir que com ele sentirei mais prazer do que o deve uma mulher decente... E isso, eu farei no pleno exercício de meus traços de caráter.

Meu amigo me explicou o que é, como funciona e para que serve um pendrive. E meu Psicanalista me ajudou a desvendar quais eram as raízes daquela angústia que uma simples pergunta foi capaz de desencadear.

Mais do que sanar uma doença diagnosticada, a intervenção da Psicanálise, tem a intenção de esclarecer aspectos de nosso funcionamento psíquico; suas motivações e formas, que nos são desconhecidos e assim nos tirar da condição de sujeitos a nossa própria história para nos tornar, de fato, autores dela.

 

 

Débora Damaceno
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