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Colunistas - Antônio Laért

CONVERSA COM AS PAREDES

Publicado na edição 128 de Dezembro de 2012

Cheguei  no recinto e  aguardava  os  que  ia  encontrar, quando de repente  veio  a  meu  encontro  uma  amiga  que não estava  entre estes e  a  muito não via. Trabalhou comigo no Jornal do Brasil e,  vendo-me com  um papel na mão, depois  de  saudar-me com um beijo, foi direto  a  pergunta: ainda  lê  tudo  que  te  cai  nas  mãos?  Fiquei meio atordoado com a pergunta, depois  de  admitir constrangido que  sim; ainda  continuo  a  ler o  que me  cai  nas  mãos. Fiquei admirado como, depois de  tantos  anos,  essa  lembrança  ainda  rolava na  cabeça dessa  minha  colega. Isso provocou  uma  reflexão em mim:  porque  busquei tanto  suprir  minhas  deficiências,  a  ponto  de deixar  marcas e  fazer com que  observassem  em mim o desprezível?  Que  marca positiva  uma  insanidade dessas  poderia  deixar  registrado  numa  pessoa ?  Sempre  acreditei  que  nada  passa  ao  largo  e tem  sempre  alguém  notando  o que  você  faz,  por  imperceptível  que seja, mas  essa, confesso, me  pegou pelo pé. Esse olhar descompromissado, de quem  pode  ganhar  uma  lição e  ser  transformado,  andar e  mudar  as  coisas  é  incrível. Gonzaguinha escreveu numa  canção: “Toda  pessoa  sempre é a  marca das  lições  diárias  de  outras  tantas  pessoas”. Que  coisa!  Minha reunião, depois desse encontro, transcorreu  normalmente,  mas  ficou em mim a preocupação com  a  conexão estabelecida.  Será que a obsessão  me  abonava?  Essa  sede  de  tudo, me  situava  como  detentor  de alguma  habilidade  portátil  relevante ?  Da  parte  de  minha  interlocutora, sinceramente, não sei. Olhando para trás, contudo, confesso, que foi esse  esforço  inconsciente  que  encobriu e  aplainou  vales  e  planícies, preencheu os  buracos  e  completou a  porosidade de  minha  formação.  A  leitura  e  o estudo  é o  que  garantem  futuro  e  condição para  a  luta  da  vida. Minha  curiosidade me  levou em frente. E  como agradeço por  tudo  que  li, sublinhei, risquei, anotei,  sobre  o que deixei  vestígios  de  minha  posse. Fiz  viagens incríveis, admirei-me  exatasiado  e  alcancei  lugares  mágicos. Ê vida, vida,  que  amor  brincadeira!  Quem sabe, um dia  consiga ser  maior  que  o  tamanho da  minha altura.       

 

Antônio Laért
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