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Colunistas - Débora Damaceno

Fantasia

Publicado na edição 129 de Janeiro de 2013

É impossível para o frágil organismo humano viver sozinho. Somos seres gregários que precisam do calor e da divisão de trabalho propiciados pelo grupo para termos nossas condições fundamentais de sobrevivência asseguradas. Por outro lado, viver em sociedade é sempre de alguma forma colocar em segundo plano nossos interesses e prazeres individuais. O conceito que define a capacidade de viver em sociedade sem abdicar completamente do próprio prazer, representado pelos instintos, chama-se Princípio da Realidade.

Estar integrado no Principio da Realidade é ser capaz de adiar o próprio prazer ou suas satisfações imediatas em prol de uma adequação social: comer com talheres num restaurante, apenas fazer xixi num banheiro, ou mesmo passar por um longo processo de namoro e noivado para no decorrer do tempo gerar as condições econômicas e sociais que possibilitarão lidar com leveza com as possíveis consequências de um envolvimento sexual, como uma criança, por exemplo.  O Principio de Realidade nada mais é do que ser capaz de se localizar no tempo e no espaço, somente possível a um ser amadurecido, adulto; pois o que caracteriza o pensamento infantil é justamente sua incapacidade de compreender a lógica do tempo.

Para lidar, no entanto, com a tensão de não ter realizado imediatamente um desejo, desenvolvemos um mecanismo mental chamado fantasia.  Já que nossos impulsos primários não compreendem tempo nem espaço, fantasiar é viver mentalmente a satisfação desejada para que a dispersão da libido gerada pela realização psíquica nos possibilite  localizarmo-nos no tempo e no espaço, agindo efetivamente para satisfazer tal desejo na realidade. Fantasiar deveria ser então um estágio da realização. Realizar, porém, sempre envolve trabalho; e trabalhar significa mudar o ambiente para adequá-lo aos nossos desejos e necessidades; o que é  dispor-se a riscos, possíveis perdas, mudanças enfim. Fantasiar é mais fácil.

Na fantasia temos possibilidade de vivenciar idealizações: Madeiras sem arestas, jardins sem insetos, amor sem entrega... Embora o prazer vivenciado na fantasia seja parcial, uma vez que prazer é um evento ao mesmo tempo físico e psíquico, é o único prazer possível para quem não quer pagar o preço de romper com sua estrutura neurótica representada pelas regras sociais.

Existem pessoas que dizem ter mais prazer em suas vivências fantasiosas que em suas práticas. Nesses casos, as regras sociais (Não faça! Tire a mão daí! Que coisa feia!)  estão tão entranhadas em si que diante da ação são de tal forma tomadas pela culpa que o que deveria ser prazer não consegue ser mais que uma angústia. E, diante da angústia, incapazes de reconhecer suas repressões, tal pessoa atribui a outrem a responsabilidade pelo seu desprazer. (Ela estava acima do peso. Ele não me acariciou como eu gosto, etc.) O que acaba por confirmar em suas consciências o quão perigoso e frustrante é o agir e quão mais seguro é simplesmente sufocar os instintos e viver sob o jugo completo das regras sociais. A pessoa que tem na fantasia sua única forma de gozo censurará com dureza qualquer um que trabalhe para realizar seus prazeres, são os moralistas do mundo.

No Principio da Realidade as fantasias são substituídas por planos em que, através do trabalho, buscar-se-á transformar a si mesmo e ao ambiente para compreender o prazer em sua totalidade.

Pois somente através do prazer integramos nosso corpo e mente, o que os poetas religiosos costumam traduzir como sendo o tão sonhado retorno ao Paraíso.

 

Débora Damaceno
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