JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Cesar Pinheiro

SENTIR-SE MAGEENSE

Publicado na edição 88 de Janeiro de 2009

Há um ano, eu e o jornalista Leonardo Custódio – que hoje vive na Finlândia - conversávamos de maneira bastante entusiasmada sobre a nossa cidade: Magé. Ele experimentava uma sensação contraditória, mas que é comum a muitos brasileiros que vivem no exterior. Esta sensação se traduz perfeitamente em frases como: “agora que eu estou aqui, nunca me senti tão brasileiro!”. No caso de Léo, a identidade mais forte não era a nacional, mas a local. Ele me dizia: “nunca me senti tão mageense! Tenho saudade da Praça da Prefeitura, de comer peixe em Piedade, das cachoeiras de Santo Aleixo”. Sentir-se mageense nada tem de óbvio: foi necessário sair do país para que Léo sentisse isso. Trata-se de uma descoberta.

Mas, tanto Léo quanto eu, não nos deixamos levar tão depressa assim. Questionamos: é possível sentir-se mageense? O que isso significaria na prática? Existe uma identidade local? As outras pessoas sentem isso? Estas são perguntas extremamente difíceis de responder. Para pensar sobre elas e, aos pouquinhos, tentar construir algumas respostas, Léo e eu criamos a Rede Mageense de Blogs. Construímos dois blogs: Léo com o Mageense Global (www.mageenseglobal.blogspot.com) – descrevendo a visão que tinha de Magé a partir de suas experiências na Europa – e eu com o Pensando Magé (www.pensandomage.blogspot.com) – observando de perto o cotidiano do nosso lugar e lançando minhas reflexões sobre ele. Há um ano estamos, sempre que possível, compartilhando nossas idéias com um número de leitores cada vez maior na internet.

Mas, agora que a Rosinha nos ofereceu um espaço no jornal Milênio Vip – valeu Rosinha! – é provável que nossas idéias alcancem mais pessoas. Nosso objetivo não é convencê-las de que temos razão nas coisas que dizemos. Nem mesmo denunciar o que observamos de errado por aí: seja na Câmara, no Palácio Anchieta ou nas ruas da cidade. Denunciar essas coisas é extremamente importante para construirmos uma cidade melhor, que fique claro. Mas nosso objetivo não é esse. Nosso objetivo é provocar o leitor (em dois sentidos): instigá-lo a pensar sobre a cidade e a sentir-se parte dela. Enfim, queremos compartilhar com o leitor a experiência de sentir-se mageense.

Um exemplo. No Rio de Janeiro há esse sentimento de pertença ao lugar: ser carioca significa muito mais que ter nascido na cidade do Rio. Existem hábitos e costumes que fazem parte da identidade do carioca. Os cariocas, de maneira geral, mesmo com todos os problemas de sua cidade (e alguns deles são bem piores que os nossos), são completamente apaixonados pelo Rio. E essa paixão pode ter implicações sérias, pois a identidade move as pessoas. Uma identidade forte pode, para dar um exemplo, destruir a apatia política.

A impressão que eu tenho é a de que não ocorre o mesmo em Magé. Em geral, temos vergonha de nossa cidade. Muitos dizem que se nossa cidade fosse como o Rio, teriam orgulho dela. Aliás, muitos mageenses dizem que são cariocas. Mas não somos o Rio de Janeiro! Já somos dependentes economicamente do Rio. Não podemos comer as sobras de sua identidade também! O Rio é o Rio. Nós somos nós. Será que nós só vamos nos apaixonar pelo nosso lugar e nos sentir parte dele quando todos os seus problemas forem resolvidos? Penso eu que é exatamente o contrário: precisamos primeiro despertar em nós a identidade de mageense; devemos nos sentir parte desse lugar (e sentir que ele faz parte de nós também) para que possamos de fato transformá-lo. Sem isso, creio eu, tudo fica mais difícil.

Magé é um lugar que, ao menos em termos de beleza natural, em nada perde para a capital. Daqui nós vemos o sol nascer por de trás da serra e pôr-se na Baía de Guanabara. Podemos pedalar até a praia de Piedade em tardes ensolaradas de domingo. Temos a beleza majestosa de Cachoeira Grande. O visual magnífico de Monjolos. A orla aconchegante de Olaria. E tantos outros lugares que eu ainda não conheço. Tantos outros lugares que eu ainda não experimentei. Talvez seja por isso que nossa identidade de mageense não se fortaleça: ficamos muito presos em nossos distritos, não conhecemos muito bem nossa cidade, não experimentamos seus lugares, não a vivemos como deveríamos. Talvez seja preciso fortalecer nossa relação com a cidade para que nos sintamos parte dela, para que nos sintamos mageenses. Mas por enquanto são apenas hipóteses. Como eu disse anteriormente, pensar sobre isso é tarefa árdua.

Gostaria de convidar todos os que, por algum acaso, lerem este texto, a pensar sobre estas questões também. O desafio está lançado. Se os leitores quiserem colaborar, podem entrar em contato por e-mail. Vamos caminhando devagar, sem pressa, procurando juntos as respostas para as nossas questões: o que é ser mageense? Em que o fortalecimento de nossa identidade nos ajudaria? Talvez descobrir e viver isso possa ser a chave para uma mudança plena e sólida.

Cesar Pinheiro
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