JORNAL MILENIO VIP

Colunistas - Dulcimar Menezes

A maior alegria da Vida!

Publicado na edição 130 de Maio de 2013

“Cada criança que nasce a vida renasce e gera uma mãe!” (Leandro Pfeifer)
(trecho editado extraído do meu TCC na FHB da UNIPAZ.RJ-2012)

...Lá na frente, aos vinte e cinco anos, morte e vida se misturaram novamente no maior evento existencial que vivi até o presente: o nascimento do meu filho. Ele quase morreu! Parto prematuro; Pressão arterial da gestante, eu, a 160x100. Na última consulta de pré-natal, fui internada por conta da hipertensão. Meu bebê estava na posição pélvica, mas eu esperava que ele pudesse virar no processo de um parto natural, pois havia me certificado desta possibilidade com a médica que me acompanhava. Eu precisava de repouso e dieta, objetivos que motivaram a internação. Fiquei sozinha no hospital, pois na ocasião não tinha direito a acompanhante. Na madrugada, sozinha na enfermaria e sem comunicação com a minha casa, pois o hospital não permitia o contato particular a partir da recepção, num tempo onde celular era um utensílio de extremo luxo que minha família não tinha condição de sustentar, restava a opção dos orelhões espalhados nos corredores da instituição, que, àquele instante, estavam defeituosos... Entrei em trabalho de parto estimulado pela hipertensão. Devido a minha criança, em meu ventre, ter se movido para a posição diagonal, o parto natural tornou-se inviável e, portanto o único recurso de salvamento passou a ser a cirurgia cesariana. Resultado: o caminho ao centro cirúrgico configurou-se num verdadeiro calvário e o pavor tomou conta.  Tudo se complicou. Cesariana de emergência. A anestesia não surtia efeito. Tomei uma peridural que não funcionou; tentou-se a raquidiana, sem sucesso. Tive que ser submetida ao procedimento de anestesia geral. Tenho certeza em meu íntimo que o fator agravante de todo o processo foi o meu Medo da morte. Bem, assim sendo, o meu filho nasceu depreciado devido a grande quantidade de anestésicos.  Na escala de apgar, o seu alcançou dois pontos. Somente em sete minutos conseguiram elevar os sinais vitais ao apgar oito. Tiveram que ressuscitá-lo. E graças a Deus, conseguiram! Mas logo depois quiseram matá-lo novamente... Logo ao sair do efeito das anestesias, já no quarto, e antes mesmo do encontro consciente com o meu neném, que estava na UTI neo-natal, fui visitada pela médica pediatra neonatologista plantonista que atuou na sala de meu parto, que me veio falar sobre o que tinha acontecido ao meu filho e lança a sua profecia amaldiçoada. Disse-me que em razão da anoxia cerebral (falta de oxigenação no cérebro) sofrida durante o nascimento, a criança apresentaria deficiências irreversíveis no desenvolvimento da sua inteligência, dado o prejuízo que tal vivência provocaria em seu sistema mente-cérebro e que “eu me desse por satisfeita se o meu filho aprendesse a ler”, palavras da médica. Isso mesmo! Por isso disse a pouco que eles, representantes da medicina da estagnação, “normótica” segundo Crema (2011), intentaram matar o meu filho lançando sobre ele um olhar de morte, tentando sepultá-lo em seus conceitos cristalizados e arcaicos sobre inteligência e desenvolvimento como verdade absoluta. Mas, tal informação não foi processada pela minha mente positiva, sempre confiante no futuro. Algo ou alguém falava fundo em minha essência e me dizia que nada do que aquela senhora previa tinha necessariamente que se cumprir. E não se cumpriu.

Com os presentes relatos tão íntimos pretendo traduzir como experiências de morte podem traduzir continuidade e caminho evolutivo e como experiências de nascimento podem traduzir paralisia, estagnação. Segundo Pearce (1977; 20) “a infância é um campo de batalha entre a intencionalidade do plano biológico, que impulsiona a criança a partir do seu interior, e nossas intenções ansiosas, que a pressionam externamente” e que “a natureza programa para o sucesso, e para isso constitui um vasto e espantoso plano em nossos genes. A natureza também programa os pais para responderem com os cuidados exatos necessários. O que ela não pode programar é o fracasso destes na proteção dos filhos.” Meu filho hoje tem vinte e dois anos, programador, graduou-se no curso de ciência da computação pela Universidade Federal Fluminense, Niterói-RJ, bilíngüe, alfabetizou aos cinco anos e, principalmente, é um homem de bem. Assim acredito que o seu programa tem se cumprido com significativo sucesso. Sou grata àquelas vozes misteriosas que falavam em meu íntimo e me ajudaram a lembrar que a história poderia não ser aquela tão mal-dita. Mas principalmente agradeço ao meu filho que com o seu olhar sereno e sua determinação em vencer os seus desafios me traduzia confiança no futuro e fé na vida. “O Amor lança fora o medo” (I Jo 4,18) e lançou o meu.

 

 

Dulcimar Menezes
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