JORNAL MILÊNIO VIP - MEA CULPA? ou A pergunta que não quer calar

Colunistas - Neuza Carion

MEA CULPA? ou A pergunta que não quer calar

Publicado na edição 130 de Maio de 2013

Desde a última edição do Milênio Vip, com o tema “Dia Internacional da Mulher”, venho buscando aprofundar uma idéia: por que nós mulheres nos queixamos tanto, por que precisamos declarar e combater uma guerra dos sexos se, afinal, quem educa e forma os homens basicamente somos nós, as mulheres? Há algo que não se encaixa.

E são tantos os “por quês”! Entre outros, por que o trabalho doméstico é “coisa de mulher” se é essencial para todos? Por que o desprezo e a resistência da maioria à participação masculina? Por que a jornada dupla de trabalho para as mulheres, que vêm cumulando o prover e o cuidar, enquanto os homens se atêm ao papel de provedor? Por que os filhos homens não são ensinados - e estimulados - a participar ativa e naturalmente do trabalho doméstico? Por que (ou porque...) este trabalho é considerado “menor”?

E por que a infidelidade feminina é sempre reprovável e a do homem, no mínimo, tolerável? Porque o dever de manter estrutura e harmonia familiares é só da mulher? E por que o homem, se já não é o único provedor/protetor, se crê detentor do poder absoluto?

Mais de um século depois da deflagração dos movimentos de liberação feminina o suposto sexo frágil fez sua parte e aprendeu a ler, a votar, a pregar pregos, fazer instalações elétricas, trocar pneus, virar concreto, prover o sustento da família (com salários inferiores aos dos homens) e continua com as mesmas responsabilidades de antes. Tornou-se independente ao custo de sua qualidade de vida e, apesar da força que sabe ter, reage choramingando.

Já o sexo considerado forte, de modo geral continua incapaz de prover suas próprias necessidades básicas e de manter sua estrutura individual fora do âmbito daquilo que pode (quando pode) pagar. Quase sempre é totalmente dependente de alguém, do sexo oposto, para comer e vestir-se adequadamente, por exemplo. E posso garantir que não sente nenhum constrangimento. Acredita que esta é a ordem natural.

É fato que muito já foi feito e que a conscientização, ainda que lenta, mudou padrões ao redor do mundo. Mas ainda é algo limitado a grupos beneficiados por boa educação/formação moral (independentemente de situação econômica) e ainda precisa de intervenção do Poder Público, através de leis. Ainda estamos longe do que se pode chamar de Justiça.

Por fim, um último por que: - Por que isto agora? Porque estamos às vésperas de outro dia da mulher, o Dia das Mães, e é preciso prestar atenção para algo que não tem sido levado em conta: em geral nós, mulheres, estamos muito mais presentes que os homens na vida de nossas crianças. Mães, avós, professoras, babás, são as mulheres que exercem maciçamente as funções de cuidado, acompanhamento, orientação, educação, na primeira fase da vida de meninas e meninos. Nós passamos as informações, os conceitos que vão moldar a personalidade e o caráter. Nós damos os exemplos. Não há motivo para que, ao crescer, tenham um comportamento diferenciado, a não ser o óbvio: foram ensinados assim. E quem ensinou? E então, quem é o responsável, de quem é a culpa? Eu não temo assumir:

- Mea culpa, mea maxima culpa.

Não é um assunto que se esgote em alguns parágrafos. Há toda uma tradição cultural de milênios, razões tão antigas quanto a espécie, razões que já não têm razão de ser e que precisam ser urgentemente discutidas e compreendidas, para serem mudadas. E para isto, só com educação, que vejo como o processo de apresentar, analisar, mostrar causas e possíveis consequências, sensibilizar, envolver, convencer, fazer junto, acompanhar mudanças e compartilhar, primeiro as responsabilidades, depois os benefícios.

O que fazer? De minha parte, deixo algo em que pensar e declaro aberto o debate.

Neuza Carion
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